O bom, o mau e a jangada
O movimento das mulheres conservadoras. É o último grito do revivalismo histórico, que ofereceu Ventura a Portugal e Bolsonaro ao Brasil. Mas o que querem, afinal, estas mulheres conservar? A lista é extensa e bafienta. A proibição absoluta do aborto, o fim da educação sexual nas escolas, o regresso da mulher ao lar, entre outras pérolas do fascismo de saltos altos. O mais irónico é que usem a liberdade que têm, e que aparentemente desprezam, para defender que outras mulheres sejam menos livres.
O bom: João Rodrigues
Aos 54 anos, João Rodrigues já não luta por medalhas. Ainda assim, continua a fazer história. Liderou a missão portuguesa com a melhor prestação de sempre nos Jogos do Mediterrâneo. Ao todo foram dezasseis medalhas de ouro, sete de prata e nove de bronze, a que se somam 93 atletas classificados entre os oito primeiros. Perante o sucesso, poucos teriam estranhado que Rodrigues fizesse valer o currículo. Sete presenças consecutivas em Jogos Olímpicos, de Barcelona 1992 ao Rio 2016, um recorde longe de ser igualado. O primeiro antigo atleta a chefiar a equipa portuguesa nestes Jogos. Só isto teria sido suficiente para justificar algum protagonismo. João Rodrigues preferiu o contrário. Descreveu a missão como devolução daquilo que o movimento olímpico lhe deu e, sobre os resultados, falou dos atletas, dos treinadores, dos dirigentes e dos funcionários do COP. Sobre si, com a elegância que todos lhe reconhecem, disse pouco. Muito depois de já não lutar por medalhas e diplomas olímpicos, João Rodrigues continua a fazer Portugal ganhar.
O mau: Luís Neves
Elevado a fatídica personagem central da segunda moção de censura do Chega ao Governo, não faltam razões para que Luís Neves seja o mau desta fita quinzenal. A menos provável viria da passagem do ministro da Administração Interna pela Madeira, no cumprimento do habitual périplo nacional de quem acabou de iniciar funções. O que, no caso de Luís Neves, embora pareça ter sido há uma eternidade, aconteceu há apenas 7 meses. E a viagem até nem começou mal. Chegado ao Porto Santo, Luís Neves até foi corajoso no diagnóstico das condições de trabalho dos agentes da PSP. Salas minúsculas, casas de banho fechadas, gabinetes sem luz natural e um conjunto de outros atentados à dignidade de quem trabalha na Polícia e que começam no Porto Santo, mas são transversais à larga maioria das esquadras na Região. Feito o diagnóstico, seguiu-se o desastre. Para o ministro, que integra o Governo da República, que tem um orçamento do Estado à disposição, as soluções virão, em primeiro lugar, do Governo Regional e das câmaras municipais. Tudo à revelia das competências de cada entidade, o que no caso da Região e dos municípios em relação à PSP é zero, e sem o mínimo de noção quanto à diferença de grandeza entre orçamentos nacionais, regionais e municipais. A partir daqui, Luís Neves ganhou balanço para o trambolhão final. Em frente ao comando regional da PSP na Madeira, o ministro lançou-se num devaneio presunçoso, disfarçado de discurso institucional, pejado de auto-elogios, recados à comunicação social e ajustes de contas partidários que não têm lugar na cerimónia de aniversário da PSP. A inabilidade foi, e tem sido, tão grande que até André Ventura se sentiu à vontade para justificar a moção de censura com o estado de degradação das instituições. Se isto não é bater no fundo, não devemos estar longe.
A jangada: O ferry
Não é de pedra, mas o ferry tem servido de jangada a boa parte da classe política regional. Tem dado para tudo. Para prometer, para adiar, para reclamar, para culpar Lisboa. Tem sido uma longa travessia, através de várias legislaturas, mas sempre sem sair do porto. Até que chegou o estudo. Na verdade, o tão desejado documento não trouxe nada que já não soubéssemos. Que nenhum operador se lança ao Atlântico sem apoio financeiro público. Que o transporte de passageiros, mesmo somado à carga, não chega para fechar a conta. E, quanto maior for a frequência do serviço, maior será o cheque exigido a Lisboa. O estudo pode não ter trazido novidades, mas serviu para afundar algumas jangadas partidárias. No melhor dos seis cenários analisados, ou seja, uma operação quinzenal, só na época alta, entre a Madeira e Portimão, o prejuízo gerado ultrapassaria os 18,5 milhões de euros. Já uma utópica ligação marítima semanal e durante todo o ano, exigiria um esforço público de mais de 144 milhões de euros e geraria um prejuízo de 1645€ por passageiro. Convém guardar os três números. Durante anos a fio, o JPP garantiu que 3 milhões de euros bastariam para pôr o ferry a operar todo o ano e todas as semanas. A operação seria tão boa que ainda deixaria margem para lucro. No meio de tantos papelinhos, escaparam-lhes 144 milhões de euros. O melhor, ainda assim, ficou para Élvio Sousa que foi até Jersey conversar com empresários locais e regressou com a revelação náutica de que “se esta realidade existe em Jersey, também é possível na Madeira”. O chefe do JPP tentou esticar Jersey até chegar à Madeira, mas esqueceu-se de que a geografia, ao contrário da política, não se dobra à demagogia. Do estudo fica uma virtude. Deixou de haver um ferry ideal escondido à espera do operador certo. Há cenários, cada um com o seu preço, e uma decisão política que terá de ser tomada com os números à vista. Quem quiser continuar a defender a ligação está no seu direito. Só terá de justificar em euros o que até agora se contentava em justificar em slogans.