Out of Africa
Poucos filmes prometem tanto. Sydney Pollack foi um exímio diretor de atores, mestre em juntar o romantismo à consciência social. E que dupla melhor que Meryl Streep e Robert Redford para o conseguir! “Out of Africa” é uma história de amor(es) mas não só. É um soberbo retrato do colonialismo europeu em África, visto por esses mesmos europeus, dramatizado pelas guerras e as prioridades europeias. Ilustra bem aquilo que nos fascina em África, ao ponto de levar o nosso subconsciente na viagem, ver as paisagens, comunicar com povos, sentir a imensidão do continente. No fundo, retrata magistralmente a África europeia.
O filme dá-nos um estereótipo de África. É útil pois, como a maioria dos europeus não conhece a generalidade do continente africano, uma visão com estas “lentes” dá-nos um vislumbre que nos permite imaginar o resto. Diria mesmo, desejar uma realidade que nos conforta e nos inspira como europeus. Eu por algum tempo senti-me confortável com esta África europeia, no meu caso África portuguesa pois a minha família viveu no eixo Moçambique - África do Sul. Desde criança fui ensinado que o colonialismo era uma missão intrinsecamente portuguesa, e aqui madeirense por maioria de razão.
Infelizmente ou não, a vida muitas vezes nos ensina que a realidade e o desejo são seres distintos, muitas vezes antagónicos. O retrato de Out of Africa já era, em 1985, algo saudosista. Hoje a realidade é diferente, distinta, até mesmo adversa. O colonialismo acabou há 3 ou 4 gerações tal como a África europeia. O conceito de África também é muito diferente. Hoje há tantas Áfricas distintas como diferentes Europas. Há a África saariana e há a tropical. A cristã, mas também alguma muçulmana. A democrática e outra nem por isso. A pobre e sem futuro e outra dinâmica e focada. A Europa permanece um parceiro forte, mas o futuro de África é agora multipolar. A Europa quer os recursos africanos em troca de ajuda externa e pede que apliquem os valores humanos e políticos europeus. Bem distinta, a China não impõe nenhum desses valores, nem muito menos um qualquer modelo político, mas troca os recursos de África por investimentos chineses a longo prazo, seja em habitação, portos, estradas, fábricas, tecnologia e, acima de tudo, educação. Os chineses veem a parceria africana como uma aposta de longo prazo, uma relação de iguais e de respeito político mútuo, ajudado por um crescimento económico de 4 a 5% na China e em África. Esta é uma postura bem diferente da europeia e mesmo antagónica da americana para com África.
E fico a pensar, se na Europa (e Portugal) floresce a ideia de Re-migração, ou seja a expulsão de imigrantes de origem étnica não europeia para os seus países, como nós vamos lidar com isto? Os diferentes dados indicam que há mais portugueses (e lusodescendentes) em África, em especial em Angola e África do Sul, do que estrangeiros africanos em Portugal. Como conseguiremos apoiar essas comunidades portuguesas na diáspora? Que futuro queremos para a CPLP e a própria universalidade da língua portuguesa? Como lidar com a nossa dependência de 80 a 90% do petróleo e gás africano e brasileiro? Como manter e até aumentar as nossas exportações para as CPLP? A única resposta que me surge para todas estas questões é o pragmatismo chinês, bem lustrada numa frase de Deng Xiaoping: “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que apanhe ratos”.
O escritor moçambicano Mia Couto ilustra com maestria a relação entre África e a Europa (Portugal): Sou um ser fronteiriço, vivo na fronteira das culturas da África e Europa. Ninguém descoloniza o outro, os dois descolonizam-se mutuamente. E dirigindo-se ao presidente George Bush: estamos a “criar uma arma de construção massiva, a capacidade (da África) de pensar”. Assim, Mia Couto augura que esta (nova) relação entre os dois continentes da colonização é complexa e necessita de muito trabalho e respeito.
A África hoje está diferente. Apesar de ser dinâmica e estar a crescer, o reduzido valor acrescentado e a pobreza demorarão a desvanecer. A democracia, os direitos humanos, a valorização social da mulher bem como o nível de corrupção são ainda uma incógnita futura. A expressão do antigo ditador do Uganda, Idi Amin: “Existe liberdade de expressão, mas não posso garantir a liberdade após a expressão” ainda é realidade em alguns países africanos, felizmente cada vez menos presente. E se a África está mais culta e educada, tem agora vozes próprias. Cada nação está a desenhar o seu futuro, não necessariamente o mesmo. O “filho” que amamos, e que também condicionamos, cortou amarras e agora segue o seu destino.
Após estas reflexões, tenho uma certeza. O épico e magistral filme Out of Africa já não é um retrato atual deste continente. Acabou por se tornar uma obra nostálgica. O filme “O menino que prendeu o vento” do britânico Chiwetel Ejiofor é o meu melhor retrato da África contemporânea. Nele, uma criança inconformada na pobre nação do Malawi ajuda sua aldeia construindo uma turbina eólica a partir de peças de sucata, que usa para obter água do solo e combater a seca que grassa a sua região, isto depois de ler sobre como o fazer um livro da biblioteca. É uma história verídica. É uma história de resiliência e autossuperação. É uma história como muitas na África de hoje. E como português, esta também deve ser uma história nossa. Out of Africa, but our hearts still remain there!