DNOTICIAS.PT
Artigos

A Madeira como lugar de encontro para o talento

A Madeira pode ganhar com o trabalho remoto muito para além da estadia de quem chega. Uma pessoa que escolhe a ilha para trabalhar traz conhecimentos, contactos e hábitos que podem enriquecer a vida local. A questão é criar oportunidades para essa troca acontecer. Ponta do Sol oferece um ponto de partida para pensar como uma vila pode participar numa economia internacional sem perder a sua identidade. O acesso a redes profissionais deixa assim de depender apenas de uma grande capital.

Nas minhas estadias em espaços de coliving na Madeira e noutras regiões de Portugal, assim como em Bali, encontrei uma forma de conciliar trabalho e convívio. O coliving junta alojamento privado, áreas comuns e condições para trabalhar. Ter uma ligação fiável à Internet e um lugar tranquilo para uma reunião permite escolher onde viver com maior liberdade, sem interromper compromissos profissionais.

O interesse está também nas pessoas que encontramos ao longo dos dias. Partilhar uma cozinha ou uma caminhada dá tempo para conhecer alguém de outra área, trocar experiências e descobrir interesses comuns. Essas relações ajudam a combater o isolamento do trabalho remoto. Por vezes dão origem a uma colaboração; noutras, ficam pela amizade. Ambas fazem parte da qualidade de vida que leva alguém a regressar.

A escala da Ponta do Sol ajuda a perceber o atrativo deste quotidiano. A proximidade do mar, dos cafés e da paisagem agrícola permite combinar um dia de trabalho com tempo ao ar livre. Comprar produtos da região e cozinhar em casa aproxima-nos dos ritmos do lugar. Para quem passa muitas horas diante de um ecrã, poder construir uma rotina assim pesa na escolha de onde ficar.

Há, porém, uma tarefa que merece mais atenção: ligar estas comunidades a quem já vive na Madeira. Um encontro entre trabalhadores remotos e alunos de uma escola pode apresentar profissões pouco conhecidas. Uma oficina aberta pode ajudar um pequeno negócio a melhorar a sua presença digital. Quem organiza o acolhimento tem aqui um papel concreto, apresentando pessoas e criando ocasiões para voltarem a encontrar-se.

É dessa continuidade que podem nascer oportunidades. Um jovem madeirense pode conhecer um parceiro para um projeto ou alguém que lhe explique como trabalhar com clientes de outros países. Um produtor pode chegar a novos consumidores. Para isso, os espaços de encontro devem ser acessíveis à população e as iniciativas responder também aos seus interesses. Uma comunidade fechada entre visitantes limita o que o território ganha.

A aposta exige cuidar da habitação e dos serviços usados por todos. Recuperar edifícios para acolher novos profissionais deve ser ponderado com as necessidades de quem procura casa para viver. Incentivar estadias mais longas pode dar tempo para conhecer os vizinhos, aprender hábitos locais e participar na vida da vila. A pressa de colecionar destinos dificilmente produz estas relações.

Gostaria que a Madeira fosse procurada pela possibilidade de trabalhar bem e de fazer parte do lugar. O êxito desta escolha dependerá também das oportunidades criadas para os madeirenses. Quando uma conversa iniciada durante uma estadia continua a gerar trabalho e aprendizagem meses depois, a ilha ganha uma ligação ao mundo que dura mais do que a visita.