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Menos digital, mais analógico

Os resultados do PISA 2025 vieram confirmar uma preocupação que muitos educadores e investigadores dos países ocidentais já sentiam no quotidiano: os jovens estão a ler menos e a compreender pior o que leem. Portugal não escapou a esta tendência.

Perante os resultados, a tentação é quase sempre procurar um culpado simples para um problema complexo. Contudo, uma leitura séria dos dados demonstra que as explicações fáceis raramente demonstram a realidade. Os resultados educativos são o produto de múltiplos fatores que atuam ao longo de muitos anos e não a consequência direta de uma única medida política.

Há, porém, uma evidência difícil de ignorar. A leitura disputa hoje espaço com um ecossistema digital que capta atenção de forma permanente. Redes sociais, vídeos curtos, plataformas de entretenimento e um fluxo incessante de informação moldam hábitos cognitivos diferentes daqueles que a leitura profunda exige. Ler um texto complexo implica concentração, tempo, interpretação e reflexão.

O consumo digital dominante privilegia, pelo contrário, velocidade, fragmentação e estímulo imediato. Isto não significa demonizar a tecnologia. O digital é uma ferramenta indispensável para aprender, trabalhar e comunicar. Mas a tecnologia é uma ferramenta; não pode substituir o cérebro humano. Em janeiro deste ano, o neurocientista Jared Horvath apresentou ao senado americano alguns dados científicos que confirmam um facto preocupante: a geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) é a primeira em 100 anos a demonstrar menos inteligência do que a geração anterior. E este facto decorre, não da tecnologia em si, mas do uso excessivo e desregulado que não permite à criança e jovem sentir tédio.

Pois é. A hiperestimulação cerebral faz com as crianças e jovens, habituados a conteúdos digitais constantes, considerem a leitura e o estudo com algo entediante e exigente, pois exige um esforço a que não estão habituados a fazer. O tédio é essencial para desenvolver o pensamento, o sentido crítico e a criatividade. Pedem imaginar a dificuldade que os professores sentem para os manter interessados na aprendizagem?

O desafio está em regular os seus usos e em criar condições para que crianças e jovens desenvolvam uma relação equilibrada com os ecrãs. A escola tem um papel crucial, mas não pode agir sozinha. As famílias, as empresas tecnológicas e os decisores políticos têm igualmente responsabilidades nesta matéria.

Se queremos recuperar competências de leitura/interpretação e formar cidadãos capazes de compreender um mundo cada vez mais complexo, teremos de investir na promoção da autonomia, da responsabilidade, do sentido crítico, da disciplina pessoal, no apoio aos alunos mais vulneráveis, na formação dos professores e numa verdadeira parceria entre escola e família.