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Crónicas

A privatização da TAP

O mal foi aceitarmos o que era bom para os Açores

Ninguém quer saber. Ou pelo menos debater publicamente. Mesmo os que tudo criticam, sobre este tema não têm opinião.

O assunto é muito complexo. Exige muita informação e conhecimentos técnicos. É tema de peritos. Apenas tem um pequeno problema: é crucial para a Madeira e Porto Santo. E estamos às escuras. Ninguém nos diz nada. O que não é aceitável.

A vida da Madeira nunca mais será a mesma sem a TAP como companhia de bandeira portuguesa. Aquela garantia de falar português e sentir-se seguro vai acabar. Fixem bem como foi e como é a TAP, para mais tarde recordar.

Não digo que vai ser pior. Pode muito bem ser melhor. Igual desconfio que seja. Mas estamos habituados a muita coisa que vai mudar.

Não sei qual a diferença entre a Lufthansa e a Air France/KLM. Já viajei em todas elas e nunca senti saudade da TAP. Sempre me senti bem nos dois grupos, como na generalidade das companhias de bandeira.

Falando do mundo civilizado, julgo não existirem más companhias de bandeira. Os Estados não deixam porque os povos têm orgulho na sua companhia aérea. É a maior vantagem em ter companhia de bandeira. Mesmo nas ditaduras e democracias sofisticadas as companhias de bandeira são sempre de grande qualidade em equipamento e serviços. São primeira referência sobre esse país. Uma boa companhia de bandeira não garante um país moderno e desenvolvido. Apenas quem não tem companhia de bandeira de elevada qualidade não tem muito boa coisa na sua vida económica e social. Não é de confiança.

Todos nós sabemos quais são as companhias de bandeira internacionais de qualidade e de excelência. Não é só pela distinção das suas primeiras classes no avião. É todo um serviço, a bordo e em terra, que qualifica e abona uma companhia.

Esta será a primeira grande perda para a Madeira. Para Portugal por igual será mau. Agora, teremos aeroportos mas nenhum avião. Entregámos, de mão beijada, os aeroportos a franceses que nos exploram e abusam. Agora vamos dar os aviões. Também a franceses? Ou a alemães exigentes que irão colocar os franceses dos aeroportos na ordem? Alguém aceita tudo no poder de franceses que, como já vimos, nos esfolam até ao tutano?

É óbvio que o governo da Madeira não tem especialistas no tema. Porventura deve ter contratado quem o possa ter assessorado a acompanhar os desenvolvimentos da privatização. E se aconteceu, deve ter dado sugestões ao governo de Lisboa na defesa do nosso transporte aéreo.

Uma coisa é certa: nada será como antes!

A TAP, por todo o seu histórico e realidade, foi sempre deixada um pouco como querendo o melhor para nós. A qualidade era boa, a segurança reconhecida e os seus prejuízos crónicos faziam crer não haver especulação nos seus preços e negócio. Perdiam dinheiro então não tinham lucro connosco. Ainda que não fosse bem assim.

Entretanto tudo mudou. O governo socialista dos Açores, procurando evitar a falência da SATA, como também o desgaste financeiro das contas públicas regionais, inventou um sistema de subsídio dos passageiros residentes que encheram os cofres da companhia açoreana mas, em simultâneo, distorceram as rotas com a Madeira dando à TAP, e a outras, oportunidades de especulação tarifária que os qualificam como assaltantes de populações insulares indefesas e sem quem os defenda.

O mal foi termos aceite o que era bom para os Açores (SATA e açoreanos) em vez de termos criado o nosso próprio modelo. Eduardo Jesus ainda bem tentou mas a euforia dos preços para residentes tirou bom senso e lucidez para fazer algo que fosse bom para nós, Madeira. Sem ficarmos piores que os açoreanos enquanto passageiros residentes. Se o Estado paga a uns, tem de pagar a todos.

No entanto, o negócio do turismo clama mais alto que o sufoco financeiro do passageiro residente. Os Açores parece terem salvo a SATA, protegeram os residentes viajantes e pouco se fala deles. Ao invés, nós engordámos a TAP, o que não era nossa obrigação, e criámos uma situação inqualificável aos nossos passageiros residentes. Degradante.

Alguém imagina o que acontecerá a esta rota com a privatização? Desconfio que ninguém. Tudo serão especulações. Até porque alemães ou franceses terão, certamente, diferentes estratégias para o caso. Não devem ter outra rota europeia com tanta margem de lucro.

Para já, franceses e holandeses, ainda que a outras distâncias, também têm populações insulares que servem. Já alemães costumam ser insensíveis a essas “miudezas” de ilhas, distâncias, insularidade, pobreza, etc. Não pode, não viaja.

Ou seja, se o Estado receber algum dinheiro pela venda da TAP será para gastar no subsídio de mobilidade das suas populações insulares. Ou vai buscar ao orçamento. Ou muda a Constituição. Ou dá-nos a independência.

O que vai ser da nossa vida, Deus saberá. Vejo tudo muito calado. Serenos? Nervosos? Não é para menos. Ao menos na Assembleia Legislativa estão todos tão ocupados com outros assuntos de Marte e Júpiter que nem lhes passa pela cabeça debater o tema, ouvir algum entendido ou questionar alguma das partes. Uma coisa está garantida: ninguém se manifesta.

Uma nota de humor: os talibãs proibiram as manifestações. Aqui não precisa proibir. Ninguém se manifesta.

Era possível manter a TAP?

Tentam me convencer que Portugal não tem competência para gerir uma companhia aérea. Tentou com brasileiros e francesa não tendo sucesso. A esperança morreu.

Mas eu pergunto: porque não se tentou que a TAP fosse parceira de um qualquer grupo de empresas? Parceira em vez de lixo para vender. Não se poderia ter feito uma AIR FRANCE/ KLM/ TAP ou outra BA/ IBERIA/ TAP? A TAP não servia para parceira estratégica em circunstância alguma, mesmo com domínio entre o Brasil e a Europa e muito tráfego para América do Norte?

Não teria sido bem integrada numa verdadeira IBERIA antes de outros planos? A IBERIA até tem larga experiência com regiões insulares europeias, autonomias nacionalistas e domínio no tráfego aéreo com os países sul-americanos que falam castelhano.

Eu penso que é tudo questão de inteligência. E esta nunca esteve centrada no governo em Lisboa. A IA chegou atrasada a Portugal. Se o ministro dos transportes hoje perguntar, no seu tablet, como salva a TAP, tem resposta em segundos.

Too late. Take Another Plane.