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“Upgrade”

Poucas áreas da ciência são tão dinâmicas quanto a medicina. Como médico, constato isso todos os dias. Muitos dos leitores também. A busca da saúde e qualidade de vida é um motivo muito forte, é em si uma poderosa força econômica e social bem como uma prioridade dos governos. A transformação contínua é impulsionada quer pela procura de melhores cuidados de saúde pelos doentes e famílias, quer pelos profissionais, estes em busca de inovação tecnológica e aprendizagem contínua. Às indústrias do sector da saúde cabe ter novas ideias, muita pesquisa e a oferta de soluções técnicas que superam as até então existentes, a custos aceitáveis e, preferencialmente, superem as soluções da concorrência, cada vez mais global e agressiva.

É mesmo a Ordem dos Médicos que aponta a aprendizagem profissional ao longo da vida como um imperativo ético, face à utilidade da mudança e ao rápido volume de novos conhecimentos.

A Medicina tem agora que integrar a inteligência artificial, a telemedicina, a análise genética com a mudança de foco para a antecipação de patologias antes mesmo da manifestação de sintomas, a dita Medicina Preventiva e Personalizada.

Mas há mais, como é a cirurgia robótica. Um avanço significativo que não substitui o cirurgião, mas que foi desenvolvida para oferecer mais controle e precisão aos cirurgiões, tornando os procedimentos menos invasivos e mais seguros, com menos sangramento e infecções. Oferece maior precisão, tempos de recuperação mais rápidos, ao mesmo tempo que fornece mais informação sobre o doente e a doença e, se bem usada, um risco reduzido de complicações em relação às técnicas tradicionais. O seu grande entrave é, no entanto, o elevado custo de instalação e a lenta curva de aprendizagem.

Na área onde trabalho, a Ortopedia, há muito que não é considerada prioritária, apesar de uma forte pressão da procura por cuidados especializados, em especial na traumatologia, mas também nas doenças degenerativas do envelhecimento, por uma população que cada vez mais valoriza a qualidade de vida e a mobilidade. Este não será o local próprio para sistematizar as razões, mas é bem conhecida a saída de inúmeros jovens profissionais competentes e dedicados dos vários serviços públicos do país ao longo dos anos, muito por entropias de uma certa gestão hospitalar e das opções menos felizes que teimam em prevalecer.

Há dias fui confrontado de uma forma algo inesperada por um utente, certamente atento e informado, questionando-me “se não houve o investimento adequado à procura, e se há agora uma pressão nos recursos humanos, faz algum sentido apostar na cirurgia robótica, cara e complexa?” É uma pergunta legítima. Foi certamente uma pergunta interessante, que me deixou a refletir.

A resposta parece simples, mas creio que na verdade é um pouco mais complexa. Em primeiro lugar, os médicos são pessoas habituadas à competição e a novos desafios, em especial os jovens especialistas. Fazer uma coisa diferente, útil, mais diferenciada é, creio, uma das poucas coisas que hoje motiva verdadeiramente os profissionais a arriscar e a apostar nas suas carreiras. E muitas vezes este estímulo leva a uma maior produtividade. Em segundo, uma cirurgia mais segura é sempre bem-vinda. E uma decisão clínica com critérios mais objetivos, como é o caso da robótica, é mais facilmente aceite e compreendida pelo utente. Também os custos iniciais acrescidos podem ser atenuados, e mesmo ultrapassados, com ganhos de eficácia e inovação. E finalmente, o início da cirurgia robótica num serviço pode bem ser o catalisador para outras inovações, mais atualização contínua, mais decisões clínicas auditadas, e até mais discussão clínica e formação de recursos humanos, com mais e experiência e mais certificação para a instituição hospitalar.

O verdadeiro segredo é equilibrar a ponderação com o sentido de oportunidade e, algo tão esquecido pela gestão hospitalar, auscultar os profissionais envolvidos, integrando-os no processo decisório.

A resposta pode não ser simples, mas a decisão é claramente sim! É útil adicionar níveis de diferenciação aos cuidados clínicos, como seja a cirurgia robótica e a inteligência artificial, em serviços com desafios clínicos, problemas de gestão e de motivação dos profissionais, desde que exista o correto investimento e acompanhamento do processo. Que haja cuidados de reabilitação que permitam otimizar os benefícios desta cirurgia e capacidade de internamento, para que as cirurgias ocorram em tempo clínico adequado. Como se diz em linguagem de software, um Upgrade. E não é por acaso que há 42 anos no Canadá, a primeira cirurgia robótica foi do foro ortopédico, no caso o sistema Arthrobot. Como diz o ditado, antes tarde que nunca!