Câmara de Lobos: de uma visão de 1967 à força da Autonomia
Há quase sessenta anos, alguém imaginou para Câmara de Lobos um futuro que então parecia distante. Hoje, podemos olhar para essa visão e perceber quanto dela se tornou realidade.
No dia 22 de março de 1967, o deputado madeirense Eng.º Rui Vieira subiu à tribuna da Assembleia Nacional para falar do futuro turístico da Madeira e, em particular, de Câmara de Lobos.
Fê-lo a propósito de um plano elaborado em 1965 pelo arquiteto António Teixeira Guerra, no qual se defendia a criação de um «núcleo de atração turística em Câmara de Lobos».
Rui Vieira descrevia um concelho predominantemente agrícola, com cerca de 30 mil habitantes, mas reconhecia nele um património natural e paisagístico de enorme valor. Do Curral das Freiras ao Cabo Girão, do Jardim da Serra às vinhas do Estreito, via lugares que considerava verdadeiros «cartazes de nível internacional».
Mas o seu discurso revelava também uma realidade muito diferente daquela que hoje conhecemos. Rui Vieira não ignorava as carências existentes na zona costeira, referindo-se aos «enormes problemas sociais e habitacionais» do Ilhéu e do Espírito Santo e Calçada. Era o outro lado de um concelho de extraordinária beleza: uma realidade marcada por graves dificuldades habitacionais e por condições de vida muito difíceis para muitas famílias.
O potencial era evidente. Faltavam os instrumentos para o transformar em desenvolvimento.
Talvez seja precisamente aqui que melhor se compreende o significado da Autonomia: a capacidade de transformar potencial em desenvolvimento e de aproximar as decisões das necessidades concretas das pessoas.
Câmara de Lobos é um exemplo particularmente expressivo dessa transformação.
Conheço-a pela minha condição de câmara-lobense, mas também pela responsabilidade e pelo enorme privilégio que tive de servir o concelho enquanto Presidente da Câmara Municipal.
Quando assumi funções, em 2013, Câmara de Lobos era já profundamente diferente daquela que Rui Vieira descrevera quase meio século antes. As acessibilidades, os equipamentos, a educação e as condições de vida tinham conhecido uma enorme evolução.
Apesar de toda esta evolução, havia ainda um contraste difícil de ignorar: o potencial turístico de Câmara de Lobos era reconhecido há décadas, mas, em 2013, a baixa da cidade continuava sem um único hotel.
Essa situação estava muito aquém daquilo que Câmara de Lobos tinha para oferecer e da própria visão expressa pelo Eng.º Rui Vieira em 1967. Foi a partir dessa constatação que assumimos o turismo como um dos vetores estratégicos para o desenvolvimento do concelho.
Estudámos o setor, identificámos os nossos recursos, apostámos na reabilitação urbana e na valorização do espaço público e criámos condições para atrair investimento privado.
Os resultados começaram a surgir. Primeiro, com a abertura do Pestana Churchill Bay, em património municipal recuperado, e depois com o Pestana Fisherman Village, também ele resultado da recuperação e valorização de património existente. Nesta estratégia, foram igualmente fundamentais a visão e o envolvimento do Presidente do Governo Regional, Dr. Miguel Albuquerque, na concretização de uma aposta que ajudou a transformar o posicionamento turístico de Câmara de Lobos.
Mas o impacto desta estratégia foi muito além da criação de oferta hoteleira. Contribuiu para mudar o posicionamento turístico de Câmara de Lobos: de um lugar sobretudo de passagem, a cidade afirmou-se progressivamente como destino, prolongando a permanência dos visitantes, dinamizando a restauração e o comércio local e dando uma nova vida ao centro histórico.
E fê-lo sem perder a sua identidade. Na baixa de Câmara de Lobos, turistas e pescadores partilham o mesmo espaço e cruzam vivências, numa convivência singular entre a atividade turística e uma comunidade piscatória que continua a fazer parte da vida e da alma da cidade.
Essa nova dinâmica refletiu-se também na crescente atratividade do concelho: em 2023, Câmara de Lobos ultrapassou as 250 mil dormidas.
Há nesta evolução um paralelo histórico particularmente significativo.
Em 1967, Rui Vieira falava da necessidade de atrair capitais e empresários e o próprio plano chegava a prever a construção de hotéis e centenas de camas em Câmara de Lobos. Décadas depois, aquela visão ganhava finalmente uma nova dimensão.
Mas seria profundamente redutor contar a transformação de Câmara de Lobos apenas através do turismo.
O verdadeiro desenvolvimento mede-se pelas oportunidades criadas para as pessoas. E poucas áreas traduzem tão bem essa transformação como a educação.
Em 2013, a taxa de retenção e desistência no ensino básico era de 16%. Desceu posteriormente para 3,2%. Entre 2011 e 2021, a população residente com formação superior passou de 3,9% para 8,6%. A estes resultados juntou-se uma aposta continuada na requalificação das escolas, nas bolsas de estudo, nos apoios às famílias e em políticas educativas destinadas a criar melhores condições de aprendizagem e maior igualdade de oportunidades.
Também no plano económico a evolução é significativa. O índice de poder de compra per capita de Câmara de Lobos passou de 57,04 em 2013 para 66,63 em 2023, uma melhoria de cerca de 17% numa década.
Transformar o concelho exigiu também capacidade para mobilizar recursos e investir. Entre 2013 e 2024 foram captados 27,7 milhões de euros de fundos europeus e o investimento municipal nas cinco freguesias ultrapassou os 52 milhões de euros.
O verdadeiro valor deste investimento mede-se, porém, naquilo que foi capaz de mudar na vida das pessoas. Uma estrada aproxima uma família, uma bolsa abre caminho a um jovem, uma escola cria melhores condições para aprender e o investimento gera emprego e novas oportunidades.
Nada disto significa que a transformação de Câmara de Lobos seja obra de uma pessoa, de um executivo ou sequer de uma geração. O concelho que hoje conhecemos resulta do trabalho de diferentes autarcas, do Governo Regional, das juntas de freguesia, das instituições, das empresas e dos trabalhadores, mas sobretudo da determinação de uma população que nunca deixou de acreditar na sua terra.
Porque transformar uma terra é também acreditar que aquilo que ainda não existe pode vir a existir.
Foi esse olhar sobre o futuro que o Eng.º Rui Vieira teve em 1967. Se pudesse hoje revisitar os lugares que então descreveu, reconheceria muito da sua identidade: o Cabo Girão, o Curral das Freiras, o Jardim da Serra, as vinhas e os bananais continuam a marcar a nossa terra.
Mas encontraria um concelho profundamente diferente.
Encontraria uma cidade requalificada, uma frente-mar devolvida às pessoas, uma nova dinâmica turística, melhores acessibilidades, mais educação e qualificações, mais investimento e novas oportunidades.
É por isso que Câmara de Lobos é também uma forma de contar a história da Autonomia: não por conceitos abstratos, mas pela distância entre aquilo que fomos, aquilo que somos e aquilo que ainda queremos ser.
E talvez seja precisamente esse percurso que torna hoje tão atual a visão do Eng.º Rui Vieira, que há quase sessenta anos usou a tribuna do Parlamento para falar do futuro de Câmara de Lobos.
Cheguei a esta intervenção de 1967 pelas mãos do seu filho, o Dr. Ricardo Vieira, a quem agradeço a partilha de um documento que desconhecia e que me permitiu revisitar a história recente de Câmara de Lobos através do olhar de quem antecipou muito do que o concelho viria a ser.
Hoje, depois de ter tido o privilégio de servir o meu concelho na presidência da Câmara Municipal e de representar a Madeira na Assembleia da República, reler esta intervenção assume para mim um significado muito especial.
Muito mudou entre a Câmara de Lobos que o Eng.º Rui Vieira imaginava em 1967 e aquela que hoje conhecemos. Mudaram as épocas, as instituições e as realidades. Mas há algo que permanece: a convicção de que Câmara de Lobos pode sempre aspirar a mais.