Quando o navegador dá à costa
Houve um tempo, e não vai assim tanto, em que a Madeira acordou com o país todo a olhar para ela. Foi a 24 de Janeiro de 2024. Cento e trinta buscas, inspectores a entrar por portas que nunca tinham sido abertas com aquela pressa, três detidos e um presidente do Governo Regional constituído arguido. Do outro lado do mar, em Lisboa, o director nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves, explicava ao país a dimensão daquilo. E fazia-o com aquele tom que só se consegue quando se tem a certeza de estar do lado certo da linha.
A operação, oficialmente, não tinha nome. Soube-se depois que tinha: chamava-se Zarco. Convém apreciar o requinte. Seis séculos depois de o Infante mandar um navegador organizar o povoamento da ilha, mandava-se outro pôr ordem na casa. A ilha que precisava de ser descoberta, e depois arrumada, e depois arrumada outra vez.
Ora, em Fevereiro deste ano, o navegador desembarcou noutro cais: ministro da Administração Interna. E desde Julho que o país assiste a um espectáculo que, aqui pela ilha, tem um sabor particular — não de vingança, que isso seria feio, mas de reconhecimento. Aquele reconhecimento incómodo de quem já viu o filme e sabe onde estão as portas de emergência.
O elenco é modesto, mas eficaz. Um monte em Odemira. Um empreiteiro amigo, cuja empresa terá recebido cerca de 1,9 milhões de euros em contratos públicos com a Judiciária enquanto o ministro a dirigia. Umas travessas de caminho-de-ferro que apareceram na propriedade e que, garante-se, foram devidamente pagas. Um atrelado apreendido numa operação de tráfico de cocaína que decidiu ir passear e foi encontrado, com uma coincidência quase poética, nas instalações do tal empreiteiro. E, sobretudo, um tanque.
Deixem-me demorar-me no tanque. Porque o tanque, segundo as próprias palavras do ministro, “acabou por se transformar numa piscina”. Reparem na construção da frase. Não foi transformado — transformou-se. Sozinho. Contra a vontade inicial do proprietário. Há aqui uma teoria da geração espontânea aplicada à construção civil que merecia estudo académico. Nós, na Madeira, que temos levadas centenárias e piscinas naturais no Porto Moniz, sabemos que a água tem vontade própria. Mas normalmente precisa de séculos e de uma erupção vulcânica. Em Odemira, bastaram dez fins-de-semana.
Agora, o essencial, e digo-o sem ironia nenhuma: não há, até à data (escrevo este texto a 8 de agosto), um único facto provado contra Luís Neves. Há um inquérito do Ministério Público, uma auditoria à PJ, um processo no Tribunal de Contas que o próprio diz ter pedido, e a garantia repetida à exaustão de que “não houve um mínimo desvio à lei”. Pode muito bem ser verdade. Provavelmente é. E a presunção de inocência que lhe assiste é exactamente a mesma que assiste a toda a gente — incluindo àqueles que, em Janeiro de 2024, viram os seus nomes atirados para a praça pública dez minutos depois de a primeira porta se abrir.
É aqui que a crónica deixa de ser divertida.
Porque o problema nunca foi o tanque. O problema é a régua. Quem passa uma carreira a medir os outros pela aparência — pelo negócio que parece mal, pelo contrato que parece feito à medida, pela amizade que parece render — não pode depois pedir que no seu caso se avalie apenas a substância. Ou a aparência conta, e conta sempre, ou não conta nunca. O que não se pode é ter uma fita métrica para o continente e outra para a ilha, uma para os investigados e outra para quem investiga.
O ministro diz-se “empoderado” e “totalmente legitimado”. É uma escolha de vocabulário fascinante para quem tem três entidades a olhar-lhe para as contas. Mas admito que perceba de legitimidade mais do que eu.
A Madeira, essa, não ganha nada com isto. Os processos da Operação Zarco continuam onde estavam, e é lá que devem ser decididos: nos tribunais, com prova, com tempo, com garantias. A tentação insular de gozar com a desgraça alheia é humana e é péssima conselheira. Não precisamos de um ministro caído para nos sentirmos melhor. Precisamos de padrões iguais.
O que fica é uma lição de humildade que a ilha já aprendeu à sua custa: ninguém é a régua. Nem sequer o navegador.
E, já agora: cá, as piscinas também nascem sozinhas. A diferença é que nós temos a decência de lhes chamar naturais.