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Desinformação: iliteracia mediática move multidões

Nos últimos dias, pudemos constatar que a desinformação consegue mover multidões, embora em contextos diferentes e com consequências também distintas.

Primeiro, assistimos, incrédulos, a uma das maiores crises migratórias alguma vez registada em Espanha. De forma descontrolada, cerca de 72 mil migrantes marroquinos, vítimas de desinformação, entraram a nado em Ceuta, devido ao entendimento deliberadamente distorcido de uma decisão do Supremo Tribunal espanhol sobre a proibição de devolução imediata de migrantes intercetados no mar.

Depois, vimos como nenhum esclarecimento, desmentido ou verificação conseguiu dissuadir centenas de pessoas de se dirigirem à Igreja da Sé na esperança de ver o casamento de Cristiano Ronaldo e Georgina Rodriguez. Preferiram acreditar nas informações falsas que circulavam nas redes sociais, tendo por base notícias sensacionalistas veiculadas por meios de comunicação social internacionais.

Os dois acontecimentos nem são dignos de comparação, mas assemelham-se pelo facto de comprovarem que ainda há muita iliteracia mediática.

Não é novidade que as informações falsas ou enganosas podem influenciar a opinião pública, as políticas governamentais e as decisões da sociedade, com consequências para esta.

Felizmente, o episódio, quase cómico, do suposto casamento do futebolista internacional só poderia ter tido eventuais consequências menos positivas (mas até nem foi o caso) para os verdadeiros noivos e convidados, que se depararam com uma multidão à saída da igreja, tendo de lidar com algum mediatismo inesperado.

Pelo contrário, o caso de desinformação que ocorreu em Ceuta teve consequências nefastas. Centremo-nos neste.

Verificou-se o uso massivo e intencional do espaço digital para incentivar fluxos migratórios. Através de publicações nas redes sociais, espalhou-se o boato de que as fronteiras estavam “abertas” e de que quem conseguisse chegar a Ceuta ou Melilha teria permissão para ficar em território espanhol.

Em reação a esta suposta boa notícia, aliada à vontade pré-existente de sair do país, o caos instalou-se em Ceuta. Contudo, perante o cenário catastrófico encontrado, poucas horas depois, 70 mil migrantes regressaram a casa desiludidos por terem sido enganados.

E a desinformação não se ficou pelo engano inicial. Ganhou de tal forma protagonismo que conseguiu dominar completamente a atualidade. Gerou alarme social e teve repercussões nacionais e internacionais.

Por um lado, servindo interesses políticos e de atores externos, foi utilizada para agravar os estereótipos e os preconceitos contra os imigrantes, associados muitas vezes ao aumento da criminalidade e do desemprego, assim como ao benefício ilegal de regalias públicas.

Logo depois das travessias, começaram a proliferar rapidamente, nas redes sociais, imagens e vídeos falsos gerados por inteligência artificial ou descontextualizados, o que gerou um ambiente de extrema tensão, prejudicando, naturalmente, o trabalho das equipas de resgate e a resposta humanitária.

Por outro lado, o Governo de Marrocos demorou demasiado tempo a pronunciar-se e, quando o fez, veio contradizer algumas informações amplamente divulgadas pelas autoridades espanholas, nomeadamente no que concerne à contabilização do número de mortos. O silêncio e as declarações contraditórias alimentam ainda mais um terreno já fértil para a propagação de desinformação, uma vez que a incerteza e a discrepância de dados destroem a confiança pública e abrem espaço para boatos, teorias da conspiração e manipulações políticas.

Para o dia 15 de agosto está marcada nova invasão e já há suspeitas de envolvimento da Rússia em campanhas de desinformação que proliferam com o intuito de amplificar a crise migratória, desestabilizar politicamente a Europa e fazer pressão sobre as regras de livre circulação no espaço Schengen.