Oposição russa denuncia tentativa de exclusão eleitoral por querer paz
O partido opositor russo Yabloko denunciou hoje que o motivo do processo judicial que o pode excluir das eleições parlamentares de setembro é o apelo aos russos para que votem pela paz na Ucrânia.
"A chave das nossas divergências é que nós estamos a favor da paz e eles a favor do derramamento de sangue", afirmou o líder do partido liberal, Nikolai Rybakov, referindo-se aos dirigentes da Rússia.
Ao depor perante o Supremo Tribunal, em Moscovo, Rybakov disse que os líderes do regime presidido por Vladimir Putin, no poder desde 2000, "compreendem que as pessoas querem votar pela paz".
"E têm medo. Por isso é que nos querem excluir das eleições", afirmou, citado pela agência de notícias espanhola EFE.
Rybakok disse que, nas últimas semanas, em toda a Rússia, os dirigentes do Yabloko receberam "milhões de mensagens com palavras de apoio".
Muita gente "quer e está disposta a votar nas próximas eleições no Yabloko", o único partido russo que se opõe à guerra, acrescentou.
Na mesma linha, o fundador do partido, Grigory Yavlinsky, afirmou numa mensagem que "o Yabloko propôs às pessoas votarem a favor da paz, da liberdade e da vida sem medo".
"Isso é o mais importante agora e nenhum outro partido na Rússia propõe algo parecido", disse Yavlinsky, que fundou o Yabloko em 1993, juntamente com Yury Boldyrev e Vladimir Lukin.
"Por isso é que querem agora excluir o Yabloko das eleições e retirar às pessoas a opção de votar em algo que agora é vital para elas, o futuro do nosso país", acrescentou.
Centenas de pessoas concentraram-se junto ao Supremo Tribunal da Rússia para apoiar o único partido opositor legal do país, testemunhou a EFE.
"Yabloko! Yabloko! Yabloko!", gritaram os presentes em frente ao edifício, onde também surgiu uma carrinha da polícia.
No âmbito do processo interposto pelo partido ultranacionalista Rodina (Pátria), pró-regime, o Yabloko é acusado de apelos ao extremismo e à violação da integridade territorial da Rússia.
Os dirigentes do Yabloko (um acrónimo do nome dos três fundadores adaptado para formar a palavra russa "maçã") são também acusados pelo Rodina de apoio às minorias sexuais e de violações de direitos intelectuais durante a campanha eleitoral.
O juiz do Supremo que preside à audiência, Vyacheslav Kirillov, é o mesmo que ilegalizou a organização de direitos humanos Memorial, Prémio Nobel da Paz em 2022.
A ação judicial é semelhante à que o Rodina apresentou em julho na região noroeste da Carélia e que levou o Supremo local a excluir o Yabloko das eleições para a assembleia regional.
Entre outras questões, a formação liberal exige a cessação imediata dos combates e o início célere de negociações de paz com a Ucrânia, além da libertação dos mais de 1.750 presos políticos.
Políticos russos de renome manifestaram nos últimos dias o desejo de excluir o Yabloko, cujas listas foram aprovadas no final de julho pela Comissão Eleitoral Central.
Numa tentativa de evitar a exclusão, o Yabloko demarcou-se na sexta-feira do apelo da oposição no exílio para votar no partido no próximo dia 20 de setembro.
Vários candidatos mais populares do Yabloko, incluindo o líder, já foram excluídos por criticarem a guerra ou por extremismo, por terem publicado nas redes sociais imagens do falecido líder opositor Alexei Navalny.
As autoridades e outros partidos sistémicos temem que o Yabloko agregue o voto de protesto contra a guerra na Ucrânia, que Putin mandou invadir em fevereiro de 2022.
Dois terços dos russos querem que a guerra seja interrompida o quanto antes, segundo sondagens do Centro Levada, um instituto de estudos de opinião pública russo classificado como "agente estrangeiro" desde 2016, ao abrigo da lei.