Amor não pode ser medo
A infância parece que está permanentemente em causa. Já abordei este assunto diversas vezes nos meus artigos, e não consegui ficar indiferente quando vi, há poucos dias, uma notícia de que um jovem de 17 anos foi detido nos Açores por suspeitas de violação e violência doméstica sobre uma criança de 12 anos, sua ex-namorada. Esta chapada de realidade obriga-nos a encarar uma realidade incómoda: a violência no namoro está a surgir cada vez mais cedo e continua a ser demasiadas vezes relativizada e silenciada nestas idades.
O problema começa muito antes da agressão. Quando alguém decide como a outra pessoa se veste. Quando exige saber onde está e com quem está. Quando afasta amizades e família. Quando transforma o telemóvel numa arma de vigilância. Quando usa o medo para controlar. Quando força toques ou relações sexuais. Quando não aceita que a relação acabou, faz chantagem e exerce violência. E o mais inquietante é que muitos destes comportamentos continuam a ser confundidos com provas de amor, por jovens e pessoas adultas. Mas não são.
O amor não prende. Não vigia, não humilha, não obriga. Não exige senhas. Não controla saídas e contactos. O amor, quando é mesmo amor, faz-nos sentir mais livres, leves e nunca, mas nunca, pessoas pequeninas.
É por isso que a prevenção da violência no namoro não pode limitar-se a campanhas ocasionais ou a ações esporádicas. Tem de fazer parte da educação, de forma contínua. Tem de entrar nas escolas, nas famílias, nas redes sociais e nas conversas diárias. Temos de ensinar crianças e jovens a reconhecer o respeito antes de aprenderem a reconhecer a violência, pois educar para relacionamentos saudáveis não é apenas falar de sexualidade. É ensinar o que é respeito, consentimento, autonomia, igualdade e consciência e gestão das emoções. É mostrar que um “não” é um “não”, que ninguém pertence a ninguém e que amar nunca pode significar controlar.
Já não podemos ignorar a influência da chamada “manosfera”. Nas redes sociais multiplicam-se conteúdos de influencers que apresentam a masculinidade como uma luta pelo poder, que desvalorizam as mulheres, romantizam o controlo e vendem a ideia de que dominar é sinónimo de ser forte. Nem todos os jovens que contactam com estas mensagens reproduzem esses comportamentos, mas não podemos ignorar o seu impacto. A educação para o pensamento crítico e para a igualdade é, por isso, fundamental. Os algoritmos não educam, e quando priorizam conteúdos que confundem masculinidade com domínio, acabam por amplificar ideias que nunca deveriam ser normalizadas.
Este caso é um alerta de que a violência no namoro surge em idades cada vez mais precoces e de que as crianças têm de ser muito mais cuidadas e protegidas. É um espelho que nos mostra que a prevenção da violência ainda não é encarada como uma prioridade governamental.
É fundamental punir quem agride, mas a maior vitória está em evitar agressões e vidas destruídas. O amor nunca deixa marcas na pele nem medo na alma. Se deixa, chamemos-lhe pelo nome certo: violência.