A incompreendida
Uma simples conversa com um colega médico internista deixou-me pensativo, algo preocupado, com a necessidade de refletir sobre quais as soluções necessárias e, acima de tudo, consciente que no buliço dos dias de trabalho, passamos pelos problemas sem muitas vezes lhes dar a devida atenção e reflexão.
O colega é internista, uma gíria médica para designar os médicos especialistas em Medicina Interna, abreviando, MI. Para ser internista é preciso primeiro ser-se médico, depois concluir com sucesso uma difícil formação específica de 60 meses e, finalmente, é preciso ser aprovado num seletivo exame nacional.
Curiosamente, alguns dos doentes que eu avalio e trato em Ortopedia, perguntam-me o que é a Medicina Interna? Digo curioso pois a MI é a especialidade hospitalar que mais doentes e doenças avalia e os trata nos nossos hospitais e é a principal especialidade na urgência. Mas, se toda a população sabe o que faz um pediatra, e um ortopedista, certamente nem todos saberão o que efetivamente faz um internista.
A Medicina Interna é uma especialidade de médicos hospitalares de carácter multifacetado e generalista, que observa, diagnostica e trata doentes adultos nos hospitais, sem usar a cirurgia mas, em vez disso, usando medicação, entre outros procedimentos. Não está restrita a um certo órgão (como os cardiologistas ao coração), nem a uma doença (como os oncologistas ao cancro) mas são como que uma “cola” que une diferentes especialidades e trata de doentes mais complexos, com diagnósticos mais difíceis ou raros, de doentes mais frágeis ou descompensados, ou com doença aguda grave. Mais, atuam em consultoria para outras especialidades, em doentes que apresentam múltiplos problemas de saúde ou fazem múltipla medicação. Assim, compreende-se que é uma especialidade fundamental na diminuição da mortalidade hospitalar e o aumento da esperança de vida duma população. A MI foi mundialmente ilustrada com o enigmático Dr. House, a cativadora personagem da série da TV. Ilustrativo também da crescente utilidade da MI é o fato de, só recentemente, os hospitais privados portugueses procurarem internistas e começarem a dignificar a MI, e a encarar os internistas como coordenadores de cuidados ao utente, o que alguns dizem ser a MI 2.0!
Disse-me no entanto esse meu colega de forma enfática: a vida de um internista no hospital público nunca esteve tão difícil, com tantos colegas em exaustão com excesso de horas no SU, o trabalho a ser tão pouco gratificante, a agressividade é latente e a “medicina defensiva” para evitar as reclamações tão incómoda e dispendiosa. E em especial os tempos de espera nas urgências são tão grandes.
O resultado, diz-me o internista com quem falei, é que a percentagem de jovens médicos a quererem especializar-se como internistas nunca foi tão baixa em Portugal! Não foi difícil confirmar a veracidade destes dados junto de outros colegas e na variada biografia disponível. Em 2025, só cerca de metade das vagas de MI tiveram médicos interessados. Se, como vemos nos noticiários, o descontentamento maior é em especialidades como a Medicina Interna e Obstetrícia, a realidade é muito mais abrangente, mesmo em Ortopedia constato que os sinais de alerta são evidentes e generalizados. E aqui estou eu pensativo, preocupado e a refletir, por quê?
Para um leitor minimamente atento, informado e inteligente, certamente lança algumas preocupações: há mais utentes idosos e com doenças que agravam com a idade ou, com somatórios de doenças que as tornam mais complexas e fatais. Muitos não têm médico de família ou, se tem médico, não podem frequentar as suas consultas por não haver vagas ou estarem acamados ou a viverem sozinhos e desconectados. O próprio acesso à saúde está mais difícil e caro, como revelam os dados do SNE. A gestão clínica hospitalar, muitas vezes politizada, está mais interessada em soluções a curto prazo do que valorizar a prevenção das doenças e a apoiar os profissionais, procurando mais “não dar ondas” do que resolver problemas estruturais. Também o número de “altas problemáticas” é cada vez maior e em muitos centros de saúde o médico está atulhado em burocracia, forçado pela gestão a apresentar mais indicadores informáticos do que em ter tempo para auscultar um doente. Em suma, a má gestão clínica, as más opções políticas de sucessivos governos e o atual desvio dos recursos de saúde para outros investimentos públicos, a maioria fora da área social.
Se num serviço de urgência a primeira linha do sistema são, entre muitos outros, os médicos da Medicina Interna, como podem eles, e os outros especialistas, sobreviver a esta avalanche de problemas não solucionados? Como se pode ignorar e não compreender o seu descontentamento? Como aceitar a prática da Medicina sujeita a tantos riscos e a resultados, no mínimo; sub-óptimos?
Por quê? Pôr o dedo na ferida é doloroso sim, mas sem conhecermos muito bem a ferida, e as suas complicações potenciais, não sabemos tratar bem. Na Medicina a reflexão é a norma. Numa sociedade, nem sempre. Citando o Dr. House: “Não existem pessoas frias, existem pessoas que aprenderam a bloquear seus sentimentos”.