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Crónicas

E se não tiver piada?

O humor pode aproximar-nos, e também pode perpetuar preconceitos quando normaliza a violência contra quem vive de forma diferente

Não gosto de polémicas. Mas gosto ainda menos de ver desinformação difundida para milhares de pessoas, sobretudo quando se disfarça de “humor” e alimenta o preconceito contra uma comunidade que já vive, todos os dias, entre o estigma, a invisibilidade e o bullying.

As palavras têm peso. Moldam perceções, influenciam comportamentos e podem normalizar preconceitos. E, quando são usadas sem rigor, não ficam apenas no campo das opiniões, contribuem para agravar a dor e a exclusão de quem já enfrenta desafios suficientes.

E se o comportamento que mais vontade lhe deu de rir fosse, afinal, a única forma que aquela pessoa encontrou para conseguir sobreviver ao mundo?

Enquanto mãe de uma filha autista, escrevo esta crónica desde o lugar de quem descobriu o quanto desconhecia.

Sou profundamente grata à ciência. Aos neuropediatras, psicólogos, terapeutas, investigadores e a todos os profissionais que dedicam a sua vida ao estudo do autismo.

E também aos autistas que corajosamente decidiram dar voz à sua própria experiência. Aos criadores de conteúdo, muitos deles médicos e psicólogos, que, todos os dias, ajudam a desmontar preconceitos.

A minha filha recebeu o diagnóstico de autismo aos 11 anos. Um diagnóstico realizado pelo Dr. Nuno Lobo Antunes, uma referência internacional na área da neuropediatria, e posteriormente confirmado pelo Dr. Rui Vasconcelos, neuropediatra de referência na Madeira, por quem nutro a maior admiração e respeito profissionais.

Acredito que, por eu já ser mãe de uma filha (a mais velha) com deficiência intelectual, esse diagnóstico não tenha sido um choque. Também não foi propriamente uma surpresa. Por isso, não senti que tivesse de fazer o luto da “filha perfeita”. Ela continuava a ser exatamente a mesma filha.

O diagnóstico não a mudou. Mudou o meu olhar. Mudou o dela. E mudou o de todos os que a amam.

A única pergunta que me fiz foi: Como posso ajudar a minha filha a compreender melhor quem é, a amar incondicionalmente quem é e a viver em paz com quem é, além das dificuldades que enfrenta?

E fiz o que já tinha feito quando soube o diagnóstico da minha primeira filha: fui estudar. E quanto mais aprendo, mais percebo o quanto desconhecia.

Hoje sei que muitos comportamentos que, durante anos, interpretei de forma errada eram, afinal, estratégias de autorregulação de um cérebro neurodivergente.

E o mais bonito aconteceu quando comecei a mostrar-lhe vídeos e testemunhos de outras pessoas autistas. Vi-a reconhecer-se. Vi-a perceber que não estava sozinha. Vi-a compreender que não havia nada de errado com ela. Que não tinha um defeito. Que o seu cérebro funciona de forma diferente. E que isso não diminui, nem por um segundo, o respeito e a dignidade que merece.

Há uma frase que ouvimos vezes sem conta. Se a mim me magoa, a ela, muito mais:

“Somos todos um bocadinho autistas.”

Não. Não somos.

Todos podemos gostar de rotinas. De previsibilidade. Todos podemos sentir ansiedade. Todos podemos ficar desconfortáveis com determinados sons ou preferir estar sozinhos em alguns momentos.

Mas isso não faz de nós autistas.

O autismo não é uma doença. Não é um traço de personalidade. Não é uma moda.

É uma condição do neurodesenvolvimento que influencia a forma como alguém processa a informação, comunica, interpreta as relações sociais, experiencia os estímulos sensoriais e regula as emoções. É um espectro. É também por isso que precisamos de conhecer melhor o autismo.

Aquilo que tantas vezes classificamos como esquisitice, má educação, exagero ou falta de esforço é, afinal, a expressão de um cérebro que processa o mundo de forma diferente.

A criança que recusa provar um alimento de que “toda a gente gosta” pode não ser esquisita. A textura, o cheiro ou o sabor podem ser verdadeiramente insuportáveis para o seu sistema nervoso.

Quem se incomoda com o ruído de um frigorífico, com uma luz demasiado forte ou com um som que quase ninguém parece notar pode não estar a exagerar. Pode simplesmente estar a receber esses estímulos com uma intensidade diferente.

A pessoa que evita falar ao telefone pode não estar a ser antipático. Para algumas pessoas autistas, comunicar sem poder observar expressões faciais, gestos e outras pistas não verbais torna a interação muito mais exigente.

Quem interpreta uma expressão de forma literal ou demora mais tempo a compreender uma ironia não tem menos inteligência. Apenas processa a linguagem de forma diferente.

Quem precisa de saber antecipadamente o que vai acontecer pode não querer controlar tudo. Pode apenas estar a tentar sentir-se seguro num mundo onde a imprevisibilidade pode ser profundamente desorganizadora.

Também os chamados interesses específicos não são simples passatempos. Muitas vezes são fontes de prazer, aprendizagem, identidade e autorregulação.

Podemos reconhecer uma ou outra destas características em nós próprios. O que distingue o autismo é a intensidade, a frequência, a persistência e o impacto que estas características têm na vida da pessoa.

E há algo que a ciência nos tem mostrado de forma consistente. Muitos autistas, sobretudo raparigas e mulheres autistas com necessidades de suporte de nível 1, passam anos a esconder as suas dificuldades para conseguirem corresponder às expectativas dos outros. Não é por acaso que surgem tantos diagnósticos tardios neste género.

Sorriem quando estão exaustas.

Imitam comportamentos sociais.

Ensaiam conversas nas suas cabeças.

Forçam contacto visual.

Controlam gestos.

Escondem movimentos que as ajudam a regular o sistema nervoso.

A este esforço permanente chama-se masking.

E sabemos que está associado a níveis elevados de ansiedade, depressão, burnout autista e sofrimento psicológico.

E todo este esforço invisível faz com que o autismo com necessidades de suporte de nível 1 seja um dos mais incompreendidos.

Quem olha de fora vê uma pessoa típica. E nem sonha o esforço gigantesco que existe para sustentar essa aparência.

Por tudo isto, corta-me o coração ver comportamentos associados ao autismo transformados em entretenimento.

O humor é uma das expressões mais bonitas da inteligência humana. Pode questionar. Pode provocar. Pode denunciar. Mas quando a gargalhada nasce de uma vulnerabilidade neurológica, temos todos de fazer uma pausa e perguntar: Estamos a rir-nos de uma excentricidade, ou de uma estratégia de sobrevivência?

Porque repetir movimentos, gravar vídeos, falar incessantemente sobre um tema específico ou recorrer a determinadas rotinas pode não ser uma mania. Pode ser a estratégia que aquele cérebro encontrou para recuperar o equilíbrio.

E se o humor não tem de ser politicamente correto, também não deveria precisar da vulnerabilidade de alguém para ter graça e fazer bullying.

Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que diz respeitar a diferença. É aquela que procura compreendê-la antes de a transformar em entretenimento. Porque aquilo que para alguns é motivo de riso pode ser, para outros, a única forma de conseguirem existir num mundo que nunca foi pensado para os incluir.