Migui, um peixe resiliente
Foi, em boa verdade, o primeiro paraplégico da família, décadas depois outro viria, menos silencioso, com menos amigos, mas igualmente resiliente
A década era a de 80, o local: Lombo de S João.
Naqueles tempos e locais a água não era contada, chamava-se “de pena”, não sei se por pena das pessoas, se por pena penal, na verdade imaginava uma pena dum pássaro qualquer enfiada no distribuidor da água, mas essa era a minha imaginação infantil que sempre foi pujante.
Adiante.
Como o líquido surgia precioso mas, abundante, o depósito, que não era pequeno, não conseguia contê-lo e as sobras jorravam, livre e gratuitamente, através duma mangueira, para o lagar onde, uma vez por ano, se fazia o vinho.
O lagar, o dito que uma vez por ano era lavado, desinfetado, e transformado em pista de dança rítmica sobre as uvas, de tanta água circulante, criava lodos e um ecossistema próprio de bichinhos mais ou menos nojentos que faziam as delícias dos peixinhos que achamos de lá dar morada. Como a bicharada era muita e os nomes se esgotavam, batizei-os de Migui, Miguipá, Xuto e Pontapé. Eram quatro, provavelmente do mesmo sexo ou escolha de castidade, porque nunca houve criação.
Certo dia de Verão, achei que os bichinhos, pequeninos, estavam demasiado expostos e decidi atirar um tijolo (bloco de cimento) lá para dentro, para servir de casa de duas assoalhadas. Com o que não contava era que a casa, pré fabricada, fosse atingir o Migui, peixinho completamente vermelho reluzente, que ficou a jazer no chão do lagar.
Foi hora de me fazer à vereda do Pinheiro e chamar reforços, as irmãs Teresa (descanse em paz), Paixão e Laurinda. E lá seguimos as quatro para tratar das exéquias do Migui. Cova, bouquets de azedas e margaridas de levada, cruz feita de vide, caixa de dominó surripiada da garagem, participação a todo o mundo “peixal”, em suma, tudo preparado para o cortejo fúnebre. Só faltava o protagonista de tão lúgrube evento.
Subimos as escadas que davam acesso ao lagar, mergulhei a mão na água fresca, no intuito de recolher Migui cuja vida expirara (alegadamente) e eis quando como que me fazendo um gesto obsceno com a sua pequena barbatana, Migui gira como o passe vite da minha mãe a triturar fruta para doce.
Migui não morrera. Fico “entravado”, paraplégico, mas vivo! E cheio de energia. As flores secaram, a cova abateu e Migui permaneceu, anos, no mesmo local. Os amigos recolhiam-se no tijolo, mas a maior parte do dia ficavam parados junto a Migui, que não estava só. Os amigos não o abandonaram, a vida não se tornou um fardo. Nunca o ouvi gritar, como, dizem, este peixe que escreve, mas, se calhar gritou, chorou e praguejou. Migui foi, em boa verdade, o primeiro paraplégico da família, décadas depois outro viria, menos silencioso, com menos amigos, mas igualmente resiliente, com força, capaz e amado.