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Envelhecer, um luxo inacessível

Faz pouco tempo, enquanto tomava café numa esplanada não pude deixar de ouvir a conversa entre a empregada do café e uma cliente. A empregada contava a situação que tinha vivido com o Pai dela no hospital. Segundo percebi o Pai teve de ser internado e passados uns dias a médica informou a filha que o Pai tinha Alta. A empregada disse à médica que não tinha possibilidade de levar o Pai, porque trabalhava todo o dia, não tinha quem a ajudasse a tratar dele, nem tinha condições de pagar um lar. A médica respondeu-lhe: “então abandona o seu Pai aqui no hospital?”, ao que a filha, a chorar, explicou que o Pai não estava abandonado porque ela estava ali…no final a filha encontrou uma instituição que acolheu o Pai e a história teve um fim feliz.

Esta situação que ouvi, por acaso, num café é uma realidade cada vez mais presente nas famílias portuguesas num País que ao envelhecer vai tendo mais pessoas idosas que precisam de ser cuidadas por estarem completamente dependentes de ajuda para sobreviverem. Assim, para as famílias, para além do primeiro luto que é saberem, que os seus entes queridos estão num processo de demência junta-se o pânico financeiro de não terem capacidade de darem um tratamento digno aos que tanto amam.

Países com a Alemanha e o Japão perceberam, há décadas, que a perda de autonomia cognitiva não é um problema das famílias, mas sim um problema social, por isso criaram seguros públicos obrigatórios de cuidados de longa duração. Sendo obrigatórios todos contribuem e quem necessita tem cuidados garantidos independentemente da sua condição financeira ou dos seus familiares... o Estado financia cuidadores, adapta casas e subsidia lares especializados que paga com as receitas do seguro.

Não vou tão longe como dizer que Portugal é um deserto de apoios, mas os apoios existentes ficam muito aquém das necessidades porque não temos um financiamento específico para os custos adicionais de ter um idoso dependente em casa.

Os meios de comunicação vão-nos mostrando a ponta do iceberg que são os lares clandestinos e as condições de vida dos idosos que lá vivem, mas fica por mostrar as condições de vida de milhares de idosos que vivem nas suas casas sem as condições que seriam exigidas a qualquer instituição que queira cuidar dentro da legalidade.

Discutimos exaustivamente a sustentabilidade das pensões, mas ignoramos completamente o financiamento da dependência. O Estatuto do Cuidador Informal e o Estatuto do Idoso são passos importantes e louváveis, mas muito curtos num longo caminho que temos a percorrer para proteger as famílias da falência emocional e, sobretudo, da financeira para ter um familiar idoso em casa com os necessários cuidados de saúde e de bem-estar físico e emocional. São louváveis as intenções da mudança do paradigma no cuidado aos idosos que passa a privilegiara permanência destes em casa com a família e no lugar onde se sentem mais seguros, em vez de os institucionalizar. Contudo é necessário pensar no apoio a estas famílias e que, sem descurar o rigor da sua atribuição, seja fácil aceder sem a habitual burocracia.

É um caminho a fazer-se, por agora, envelhecer em Portugal tornou-se um luxo incessível para a grande maioria das famílias portuguesas.