DNOTICIAS.PT
Crónicas

O Estado da Região

Todos os anos a Assembleia Legislativa representa a peça chamada Debate do Estado da Região. O nome é magnífico. Lembra parlamentos onde se discutem ideias e o futuro. Depois começa a sessão e percebe-se que o título é ilusionismo político para apagar a realidade enquanto se debitam números.

O Estado da Região? Qual Estado? O da propaganda ou o da vida?

Existem duas Madeiras que raramente se encontram. Há a das declarações na Tasca do Bexiga, dos gráficos, das inaugurações, das fotografias de capacete e das palavras “crescimento”, “liderança”, “resiliência” e “sucesso”. E há a Madeira verdadeira, fatigada, que acorda às seis, passa horas no trânsito, paga uma renda obscena, espera meses por uma consulta e acaba o mês a fazer contas com um lápis partido.

A primeira aparece na televisão. A segunda, quando ela se desliga.

O Governo fala do crescimento como um padre medieval das relíquias. Não importa haver milagres. Basta que os fiéis acreditem. Crescemos sempre. Há tantos meses que, qualquer dia, a Madeira deixa de ser ilha e passa a balão meteorológico.

Esse crescimento nunca chega ao bolso das pessoas. Deve perder-se numa obra reinaugurada ou num gabinete onde criar outro instituto público estimula a economia. Cada director precisa de subdirectores, cada subdirector de assessores, cada assessor de gabinete e cada gabinete de relatórios que ninguém lê.

A burocracia tornou-se a principal indústria da Madeira. Não transforma riqueza. Transforma tempo em papel.

Dizem que o desemprego desceu. Pode ser verdade. As estatísticas raramente mentem. Escolhem o que contam. Não contam o licenciado que serve mesas, quem trabalha doze horas para pagar uma casa do banco, nem quem desistiu de procurar melhor porque a esperança também caduca.

As estatísticas são extraordinárias. Fazem desaparecer pessoas sem magia.

Depois chega a habitação, comédia de arquitectos da ilusão. Disseram que construir mais resolveria tudo. Constrói-se mais, mas falta casa para quem trabalha. Milagre económico ao contrário. Quanto mais oferta, menos acesso. Construímos para investidores que talvez nunca conheçam a maresia do Funchal e explicamos aos filhos que podem viver até aos quarenta no quarto dos exames. É mais fácil comprar um automóvel do que um T2.

Como solução, surge a verticalização. Construamos para cima. Vinte andares. Trinta. Quarenta. A paisagem e a identidade resolvem-se depois. Perdido o horizonte, aumentam-se as janelas.

Há um detalhe incómodo. Enquanto se sonha com torres que fariam corar Benidorm, um cidadão espera anos para acrescentar um piso à casa do filho casado. Para o promotor há urgência estratégica. Para o senhor João, um formulário em falta.

A velocidade administrativa varia consoante a carteira.

A saúde merece aplauso, não pela excelência, mas pela criatividade semântica. As listas mudam de nome, os problemas reorganizam-se, os atrasos recebem novas designações. Tudo parece moderno com nova etiqueta. Os profissionais acumulam desgaste, os utentes ansiedade e o sistema promessas. O optimismo é o único medicamento sem receita.

O turismo responde a tudo. Se a economia abranda, mais turismo. Se falta habitação, mais turismo. Se os salários não chegam ou o trânsito colapsa, mais turismo.

Transformámos um sector numa religião. Já não se discute diversificação. Seria heresia. Quem duvida é inimigo do progresso, como se desejar equilíbrio fosse querer fechar o aeroporto.

É infantil. Uma ilha não dispensa agricultura porque recebe turistas, nem indústria, inovação, tecnologia ou investigação porque os hotéis estão cheios.

Uma economia de motor único não é forte. É vulnerável com requinte.

Talvez seja essa a definição do Estado da Região.

Uma vulnerabilidade embrulhada para presente, com banda filarmónica, drones e discursos onde tudo corre bem. Até que a realidade, mal-educada que não respeita os guiões do poder, aparece sem convite.

A Autonomia vive ironia. Nunca teve tantos meios, capacidade e orçamento, mas nunca pareceu tão pequena. Pequena nas ambições, na imaginação e na coragem de pensar além da próxima legislatura ou fotografia.

A Autonomia nasceu para aproximar o poder das pessoas. Acabou por aproximar demasiadas pessoas do poder.

Criou-se uma cultura onde o Governo deixou de servir a Região e passou a confundir-se com ela. Criticar o Executivo tornou-se lesa-pátria, como se um governante fosse a Madeira e não um funcionário pago pelos contribuintes. Uma coisa é amar a terra. Outra é venerar quem a administra. Há quem confunda patriotismo com fidelidade partidária.

É o maior triunfo de quem governa há demasiado tempo. Convencer parte da população de que, sem eles, a ilha deixaria de flutuar.

Cresce uma dependência ausente dos discursos. Económica e psicológica. Tudo depende de despacho, assinatura, favor, telefonema ou fotografia junto da pessoa certa. O mérito entra pelas traseiras, a proximidade pela porta principal.

É o velho clientelismo, agora de fato italiano, apresentações da DREM e campanhas nas redes sociais. Mudou a embalagem. O conteúdo continua parecido.

Depois admiram-se de que os jovens partam. Não odeiam a Madeira. Amam-na, mas descobrem que o currículo vale menos do que o cartão certo, o talento perde para a conveniência e o futuro continua adiado.

Há quem lhes chame ingratos. Seria mais honesto chamar-lhes lúcidos.

Também a oposição merece linhas. Demasiadas vezes faz de figurante. Protesta diante das câmaras, indigna-se por quarenta e oito horas e regressa à impotência. Sem oposição forte, a democracia torna-se uma sala de espelhos onde o poder contempla a própria imagem. E adora espelhos, sobretudo por limpar.

Entretanto, o cidadão aprende a sobreviver. Aguenta filas, impostos, burocracias, salários curtos, rendas obscenas, estradas saturadas, serviços sobrecarregados e discursos optimistas. Há heroísmo em quem trabalha, cria filhos e paga contas sem aparecer numa fotografia oficial.

São essas pessoas que sustentam a Região. Não os comunicados, as visitas ao cabeleireiro da Dona Odete, os slogans ou os drones sobre falésias, como se uma imagem substituísse uma política pública.

Repete-se que a Madeira vive o melhor momento da História. Lembro-me de uma casa pintada. De longe, impecável. De perto, humidade, vigas carcomidas e telhado a cair. Mas a tinta é nova. E a fotografia fica lindamente.

Assim se governa. Não se resolvem problemas. Gerem-se percepções.

O mais inquietante é que parte da sociedade aceitou isto como normal. Esperar meses por um exame. Trabalhar e não comprar casa. Um licenciado emigrar. Depender de um sector. A propaganda superar a Administração.

Isto não é normal.

Uma sociedade definha quando perde a capacidade de se indignar, troca exigência por resignação e agradece como privilégio aquilo que devia ser um direito.

Talvez seja esse o verdadeiro Estado da Região.

Não é o dos relatórios, conferências ou aplausos disciplinados. Mede-se pelo silêncio de quem desistiu, pelo cansaço de quem trabalha sem sair do sítio, pela ansiedade de quem vê os filhos sem horizonte e pelo conformismo de quem julga tudo inevitável.

Não é.

A Madeira sabe reinventar-se. Fez da pobreza sobrevivência, do isolamento oportunidade e da distância identidade. Nunca faltou inteligência colectiva. O problema é substituí-la pela conveniência, trocar debate por propaganda e pôr a política ao serviço da própria conservação.

Uma Região não entra em decadência quando deixa de crescer. Entra quando deixa de fazer perguntas.

A pergunta que importa continua sem resposta.

Depois de quase meio século de Autonomia, queremos cidadãos livres ou contribuintes obedientes? Uma sociedade que pense ou uma plateia que aplauda? Uma Região dos madeirenses ou uma Madeira onde são convidados do poder?

Enquanto a resposta for adiada, o Debate sobre o Estado da Região será apenas isso. Um debate sobre um Estado imaginário, iluminado pela propaganda, enquanto a Madeira real espera à porta do Parlamento que alguém tenha coragem de a deixar entrar.