O circo
Maior parte dos espectáculos de circo a que tenho assistido contam com várias valências. Contam sempre, ou quase sempre, com palhaços. Muito raramente, ou nunca, os palhaços são a única componente do espectáculo.
Infelizmente não é isso que se vê na administração da coisa pública na Madeira. Cada decisão do governo regional é uma clara falta de bom senso e a promoção de vaidades. E a promoção de interesses de lobbies que nada têm a ver com os interesses da Madeira e dos madeirenses.
A última loucura tem a ver com o licenciamento de edifícios de vinte andares no Funchal. Falamos de uma cidade que já tem sofrido, muito, com a especulação imobiliária e a descaracterização das tradições e de todo o património construído da cidade. Já há ruas em que é difícil encontrar elementos da arquitectura regional...
Aquilo que esta ânsia me faz lembrar é as torres com mirante... eram desenhadas, acima de tudo, para show off e alimentar o ego dos seus promotores.
Isto acontece na sequência de, e pelos mesmos promotores, de estacionamentos subterrâneos no largo do Colégio, para centenas de viaturas, sem nenhum estudo sério sobre a alteração das dinâmicas do centro da cidade... ou mesmo com a segurança e protecção do património construído da zona.
Isto vem na sequência de, e pelos mesmos promotores, de propostas para a construção de novos campos de golfe, financiados com milhões que não existem para áreas centrais do bem estar dos madeirenses, como sejam a saúde e educação.
Não há dinheiro para acabar o hospital, ou para manter até o que já existe. Não há dinheiro, ou sequer vontade, de pagar e reter os profissionais que todos os dias dão a cara e o corpo ao manifesto para manterem este tipo de estruturas básicas de serviço às populações. Mas há dinheiro para construir um campo de golfe no Faial, ou promover um jantar de meio milhão nos EUA...
A administração regional está podre. Desde sempre se promoveu mais a capacidade de dizer que sim e o lambebotismo do que a honestidade e inteligência, e os resultados estão à vista e vêem-se, infelizmente, todos os dias. Todas as decisões governamentais pecam por tardias e tomadas de forma incauta, inconsciente e atabalhoada. E inconsequente.
Todos os dias penso na Madeira que vamos deixar aos nossos filhos e netos. E de todas as vezes que faço este exercício penso no como se justificam, e justificarão, as decisões tomadas, e no como se aceitaram e interiorizaram decisões que vão afectar, de forma determinante, e infelizmente muito negativa, o futuro da Madeira e dos madeirenses.
Eu quero que os meus filhos e netos tenham um futuro na Madeira, e que a Madeira tenha um futuro para eles. Infelizmente, não é isso que vejo. Infelizmente, também, não vejo nos madeirenses a vontade e a coragem de fazerem seja o que for por uma mudança. Cinquenta anos depois, Abril ainda não chegou à Madeira.
Em termos substanciais, muito pouco mudou desde a ditadura. Sim, há mais riqueza, mas continua mal distribuída, e demasiado concentrada nos lobbies do PSD. O discurso e a postura governamentais, e a sua praxis, continuam a ser dos tempos da velha senhora.
Urge acabar com a palhaçada.