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Emojicracia

Hoje, dia 17 de julho, comemora-se o Dia Mundial do Emoji.

À primeira vista, parece uma efeméride menor. Talvez não seja. Afinal, dificilmente existirá um símbolo mais apropriado para retratar os tempos em que vivemos.

Dizem que uma imagem vale mais do que mil palavras.

No século XXI, bastou reduzir emoções, indignações, amores, tragédias e entusiasmos a um pequeno catálogo de rostos amarelos e outros ícones para acreditarmos que comunicar ficou mais simples. E ficou. Nunca a humanidade dispôs de tantos meios para comunicar, mas, paradoxalmente, nunca pareceu tão satisfeita em reduzir a complexidade de uma ideia ao conforto de um ícone.

Embora os emojis tenham surgido para complementar a linguagem, ironia das ironias, acabaram muitas vezes por substituí-la. Como acontece com tantas boas ideias, depressa lhes descobrimos outra utilidade: poupar palavras. E, por vezes, até poupar pensamento.

Talvez seja essa a verdadeira definição de emojicracia, um regime contemporâneo em que as reações passaram a valer mais do que as ideias, onde a velocidade substituiu a reflexão e o algoritmo recompensa a emoção instantânea e castiga o pensamento demorado. Onde, rodeados de mensagens, notificações e comentários, importa menos compreender do que tomar posição. E onde a velocidade de reação passou a ser confundida com inteligência.

Vejamos alguns exemplos dos temas mais em foco nos últimos tempos e tentemos associar-lhes um emoji. Por exemplo, o mecanismo de continuidade territorial, em que o madeirense faz contas, reúne papéis, enfrenta a plataforma digital, espera respostas e certamente que se fosse para escolher um símbolo não seria um avião. Mais depressa aquele emoji que todos conhecemos, mas que a boa educação impede de reproduzir num jornal.

Outro exemplo onde o anterior símbolo também seria bem aplicado é na trapalhada dos exames nacionais que demonstram mais uma vez a extraordinária capacidade que algumas instituições têm para transformar um procedimento relativamente simples numa novela por episódios. Corrigem-se correções, reveem-se revisões, esclarecem-se esclarecimentos. Talvez o Ministério da Educação devesse substituir os comunicados por uma sequência de emojis. Um rosto confuso, uma ampulheta, uma borracha e, no final, dedos cruzados. Seria mais transparente.

Neste estranho tempo em que nos coube viver, vemos como a miríade de ícones existentes funcionam quase como um termómetro social, pois mostram o pulso da opinião pública. Na prática, já quase não discutimos acontecimentos. Escolhemos um emoji e juntamo-nos à respetiva claque.

A velocidade com que hoje reagimos às notícias é inversamente proporcional ao tempo que lhe dedicamos antes de formar uma opinião, como se a urgência de responder tivesse passado a valer mais do que a responsabilidade de compreender. Até porque pensar exige demasiado tempo e o algoritmo prefere emoções rápidas.

Agora que se aproxima o fim do Mundial de Futebol da FIFA 2026, acrescente-se que o futebol também deixou de ser apenas futebol. Hoje discute-se menos o jogo do que a fotografia publicada depois do jogo, o gesto captado pela televisão, a frase retirada do contexto ou a expressão facial transformada em manchete. Há mais especialistas em interpretações do que em factos, e a popularidade e sucesso medem-se em número de likes e seguidores.

E seria cómodo fingir que isto acontece apenas aos outros. Não acontece. Também nós já respondemos com um polegar para cima quando devíamos ter escrito um parágrafo. Também nós já substituímos uma conversa por uma reação imediata.

Por outro lado, não deixa também de ser evidente que os emojis, os likes e os comentários nas redes sociais são o palco perfeito para os líderes políticos que governam por impacto emocional, que necessitam de validação permanente, e que priorizam visibilidade em vez de verdadeira influência na melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Olhando para o estado da política, da administração pública, das guerras, das promessas e até de algumas entrevistas e intervenções públicas, suspeito que o emoji mais rigoroso para descrever o primeiro semestre de 2026 ainda não foi inventado.

Mas a julgar pelo atual estado da nação, o próximo emoji devia ser uma avestruz. Sempre foi uma excelente metáfora para quem prefere não ver nem fazer o que tem de ser feito.

Pensando melhor... talvez seja preferível não. Há símbolos que já têm representantes a mais.