Quando os colegas nos viram as costas
Durante anos, dei o peito às balas pelos meus colegas. Como sindicalista, enfrentei chefias, participei em reuniões difíceis, assumi posições incómodas e, muitas vezes, expus-me pessoalmente para defender direitos que não eram apenas meus, mas de todos.
Fi-lo porque acreditava que a solidariedade entre colegas era mais do que uma palavra bonita. Acreditava que, quando um colega era atacado, os outros se uniam. Acreditava que a justiça e a lealdade tinham valor.
Mas a vida tem uma forma curiosa de nos ensinar as suas lições.
Quando chegou a minha vez de precisar de apoio, quando fui eu quem enfrentou dificuldades e precisava da solidariedade daqueles que tantas vezes tinha defendido, descobri uma realidade diferente. Muitos dos que beneficiaram da minha intervenção desapareceram. Alguns ficaram em silêncio. Outros olharam para o lado. Outros ainda preferiram não se envolver.
Foi uma desilusão profunda, não apenas pelas pessoas em si, mas porque abalou uma convicção que eu tinha sobre a natureza humana e sobre o espírito de grupo.
Com o passar do tempo, percebi que muitas pessoas valorizam quem as ajuda enquanto precisam. Quando o problema é resolvido, a gratidão desaparece rapidamente. E quando apoiar alguém implica correr riscos, assumir posições ou enfrentar consequências, muitos preferem proteger-se a si próprios.
Não escrevo estas palavras por amargura. Escrevo-as porque a experiência me obrigou a rever a forma como vejo o compromisso com os outros.
Hoje continuo a acreditar na importância da defesa dos direitos dos trabalhadores. Continuo a acreditar que o sindicalismo desempenha um papel essencial numa sociedade equilibrada. Mas também aprendi que não devemos esperar reconhecimento eterno nem lealdade incondicional.
Há uma diferença entre ajudar e sacrificar-se. Entre ser solidário e esquecer completamente os próprios interesses. Entre lutar por uma causa e acreditar que todos lutarão por nós quando chegar a nossa vez.
Se pudesse voltar atrás, talvez continuasse a defender os colegas. Mas faria uma coisa de forma diferente: não criaria expectativas. Porque as maiores desilusões da vida não surgem dos inimigos. Surgem daqueles que julgávamos estar ao nosso lado.
A maior lição que retirei desta experiência foi simples: a lealdade é muito mais rara do que a solidariedade de circunstância. E só descobrimos quem realmente está connosco quando somos nós a precisar de ajuda.
Esta é uma realidade que toca numa experiência muito humana: a diferença entre a gratidão que esperamos e a gratidão que realmente existe.
António Rosa Santos