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Mais Autonomia só com mais Desporto

Quis a vida que o meu artigo de opinião do mês de junho coincidisse com o centésimo aniversário da maior conquista desportiva de um clube insular na elite do futebol nacional. A 6 de junho de 1926, o CS Marítimo bateu o Belenenses por 2-0 e tornou-se campeão de Portugal. Feito que se verificou pela primeira e única vez por um clube insular e, no caso do Marítimo, apenas 16 anos após a sua fundação oficial.

No entanto, apesar do meu conhecido maritimismo, não é esse o tema deste artigo. Aquilo que procuro destacar é algo mais amplo: o Desporto é um veículo preferencial de transformação de mentalidades, sendo provavelmente, a par do investimento na Educação, o melhor instrumento de aprofundamento da Autonomia Política da Madeira. Somos perentórios em afirmar que o Desporto é absolutamente estrutural nos tempos que correm, em especial na formação dos mais jovens, e que é a área de intervenção social em que se promovem e adotam estilos de vida saudáveis. Que permite formar jovens mais resilientes e preparados psicologicamente para as adversidades da vida, onde se combate as dependências e onde, inevitavelmente, criamos futuro.

Para além disso, todos somos influenciados pelas crenças do meio onde vivemos e das pessoas que nos rodeiam. Apesar da Autonomia comemorar este ano o seu quinquagésimo aniversário, isso não faz dela uma convicção de todo o território nacional. Nem desde o dia em que nasceu, nem passados 50 anos. Pelo contrário: as convicções mudam-se com o tempo, não por decreto. E se dúvidas houvesse, há um exemplo que as desfaz. Pouco tempo antes do 25 de abril, o Marítimo, para voltar a poder competir nas competições nacionais de futebol de onde esteve arredado por decisão política durante décadas, teve de assumir o compromisso de financiar as deslocações das equipas continentais e de arbitragem à Madeira. À data, entregou uma garantia de 800 mil escudos à Federação Portuguesa de Futebol. Traduzindo para os dias de hoje, seria o mesmo que dizer que o Marítimo só participaria no primeiro escalão se garantisse, junto da Liga de Futebol, 425 mil euros para pagar a vinda das equipas continentais e dos árbitros à Madeira, fora os seus custos de deslocação ao continente nas outras semanas.

Não tenhamos dúvidas: o conhecimento mais amplo daquilo que nos rodeia advém da frequência com que contactamos com realidades diferentes das nossas, pelo que uma das formas mais eficazes de combater visões menos esclarecidas sobre as Autonomias é através do contacto promovido entre jovens e respetivas famílias em todo o território nacional. Contacto esse que existe muito longe das elites políticas e dos centros de decisão sediados em Lisboa. Acreditamos que qualquer alteração de fundo à perspetiva que muitos portugueses continentais têm sobre as Regiões Autónomas só se alterará se for mais comum privarem com madeirenses. E não há contacto maior do que aquele que é potencializado pelo Desporto. Só através da convivência é que se muda a perceção que temos daquilo que nos rodeia e do meio onde estamos inseridos. Se é assim entre pessoas, porque seria diferente entre Regiões num país descontinuado?

Tudo isto para dizer que numa terra de campeões devemos aproveitar esse potencial para afirmar que na Madeira há oportunidades, investimento, pessoas com talento, mas que existem também obstáculos.

Adversidades que impõem limites significativos à participação nas diferentes práticas amadoras e que vão desde as condições de mobilidade à mestria de rentabilizar o tempo para o estudo. Ou, ainda, à capacidade de participar em provas internacionais porque, apesar do mérito desportivo, existe exiguidade no território.

Quem não contacta ou não conhece as diferentes limitações nunca as poderá compreender. Exemplo maior foi aquele que experienciamos a 1 de maio, dia em que o Marítimo foi campeão da II Liga: os 19 dirigentes nacionais que estiveram no Funchal foram unânimes. “Façam tudo o que estiver ao vosso alcance para que o CS Marítimo se mantenha na I Liga. No País, depois dos três grandes, não há outro clube com esta paixão, dimensão e história”, disseram. E duvido muito que esta constatação se verificasse caso o CS Marítimo não tivesse vencido um campeonato e, por consequência, não viesse um “carregamento” de dirigentes do futebol nacional para a respetiva consagração.

Quando se celebram os 50 anos das Autonomias, é fundamental que se compreenda a verdadeira dimensão do Desporto - não apenas do futebol profissional - e como os seus horizontes são essenciais na capacidade de transformar mentalidades, pessoas e afirmar Regiões. Felizmente, há mais vencedores madeirenses nas diferentes modalidades desportivas, pelo que é sensato dizer que só há mais Autonomia se houver mais Madeira na elite do desporto nacional.