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Crónicas

A Saúde Regional Está a Ser Carregada às Costas

O nosso Serviço Regional de Saúde está pelas costuras e talvez fosse elegante dizer isto com uma voz baixa, de funcionário que tem medo da palavra verdadeira, chamando-lhe “dificuldades conjunturais”, “pressão assistencial”, “limitações transitórias”, essas mortalhas perfumadas com que se embrulha a evidência para ela não cheirar tanto a abandono, mas a verdade, que é sempre mal-educada, entra pelos corredores, encosta-se às macas, senta-se nas cadeiras de plástico das salas de espera e diz-nos que o sistema está gasto, remendado, exausto, a fingir que anda quando já só se arrasta, e se ainda não caiu por inteiro, se ainda abre portas, se ainda recebe os que chegam com febre, medo, sangue, falta de ar ou a pobre esperança de quem não tem mais onde bater, não foi por causa dos discursos, nem dos planos, nem dos comunicados, nem dessa ciência tão regional de inaugurar intenções como se fossem hospitais. Aguenta-se porque há pessoas lá dentro. Só isso. Pessoas. Médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes operacionais, bombeiros, polícia e GNR, auxiliares, administrativos, gente que não aparece nas fotografias de circunstância, gente que não corta fitas, gente que não sorri para a câmara com ar de quem salvou a civilização entre duas reuniões, mas que segura o sistema enquanto os donos ocasionais do edifício garantem que as paredes estão óptimas. Pessoas que dão tudo o que têm pelo próximo e, como esta terra tem uma paixão antiga por consumir os bons até ao osso, dão também o que já não têm, o sono, a paciência, a família, a cabeça, o corpo, a saúde, aquela parte íntima da alma onde uma pessoa devia poder voltar a ser apenas pessoa.

Mesmo quando há momentos menos bons, e há, porque os hospitais não são capelas de santos obedientes nem os profissionais de saúde foram fabricados em mármore para uso ornamental da propaganda, convém lembrar o óbvio, esse luxo subversivo que raramente cabe num despacho: estamos a falar de seres humanos. Não de rubricas, não de recursos, não de mapas, não de “efectivos”, palavra horrível que transforma gente em inventário, não de bonecos que se mudam de uma coluna para outra como se a vida fosse uma folha de cálculo, esse altar moderno onde tantos incompetentes fingem pensar. Estamos a falar de pessoal médico e auxiliar sujeito a horários que fariam rir, se não fizessem antes vontade de partir qualquer coisa, a turnos intermináveis, a noites coladas a manhãs, a dias que começam antes de o corpo ter acabado o dia anterior, em contacto permanente com a dor, a urgência, a morte, a solidão, a miséria, o medo, o grito, o silêncio pior do que o berro. Há quem imagine que isto fica no cacifo com a bata, que se fecha uma porta e pronto, a criança que sofreu, o velho abandonado, a mulher aflita, a família em desespero, tudo aquilo se senta quietinho à espera do turno seguinte. Pois sim. Também há quem imagine que a administração planeia, que a política prevê e que a retórica cura. A imaginação humana, como se vê, continua a ser uma fonte inesgotável de disparate.

O cansaço, aquilo que agora se chama “burnout”, com esse ar estrangeiro e respeitável que a psicologia e as organizações gostam de colar às tragédias banais para que pareçam descobertas recentes, não é uma doença elegante de profissionais frágeis, nem uma moda de conferência, nem uma espécie de luxo emocional para gente que não aprendeu a endurecer. É o nome limpo de uma coisa suja. É o regime de trabalho que atropela, que esmaga, que passa por cima das costas, dos olhos, das pernas, da cabeça, da memória, do coração, que não deixa tempo para descansar, festejar, nadar, dormir, comer sentado, acompanhar um filho, visitar um pai, olhar pela janela sem culpa, envelhecer devagar, estar vivo para além da função. O “burnout” não nasce como as ervas depois da chuva, espontâneo e inocente. É produzido. Produzido por falta de gente, por má organização, por chefias que aprenderam a chamar “resiliência” à exploração, por decisores que descobriram a palavra “missão” como quem descobre uma mina, porque enquanto houver missão pode haver abuso, enquanto houver vocação pode haver horas a mais, enquanto houver decência pode haver gente a aguentar o que já não devia ser aguentado. Primeiro pede-se mais um esforço, depois outro, depois outro, depois outro, até o esforço deixar de ser excepção e passar a ser regra, e quando a pessoa começa a desfazer-se por dentro, aparece alguém, naturalmente com uma voz grave e comovida, a agradecer o empenho, esse lenço branco que se abana diante dos escombros para fingir gratidão.

Não está tudo bem. Não está quase tudo bem. Não está razoavelmente bem. Está mal, e só uma sociedade treinada na anestesia consegue olhar para um sistema sustentado pela fadiga dos seus profissionais e chamar-lhe funcionamento. Um Serviço Regional de Saúde não pode depender da resistência física e moral de quem lá trabalha, como se a política pública fosse uma prova de sobrevivência e o vencedor fosse aquele que caísse mais tarde. Um sistema público de saúde não pode ser uma máquina velha, ferrugenta, sempre remendada, sempre empurrada para mais uma subida, sempre lubrificada com boa vontade, enquanto os responsáveis, com a serenidade de quem nunca empurrou maca nenhuma, nos explicam que a máquina continua operacional. As pessoas não são peças. Não são filtros. Não são motores. Não são rolamentos à espera da próxima revisão que nunca chega. Não podem trabalhar cinco, dez, quinze, vinte anos sem descanso efectivo, sem protecção, sem recuperação, sem tempo, sem respiração, sem a elementar decência de serem tratadas como gente e não como prolongamentos vivos de um sistema morto de cansaço. Porque depois acontece o que sempre acontece, e só os distraídos profissionais se surpreendem: o corpo começa a ceder, a cabeça começa a falhar, a paciência fica curta, a empatia encolhe, a irritação cresce, a bondade torna-se difícil, não porque tenha desaparecido, mas porque ninguém dá eternamente aquilo que lhe arrancam todos os dias.

Há uma hipocrisia nauseante na forma como se fala dos profissionais de saúde. Quando servem à fotografia, são heróis; quando se queixam, corporativos; quando avisam, dramatizam; quando exigem condições, ameaçam a estabilidade do sistema. Nas crises, há palmas, vídeos, medalhas e lágrimas televisivas, porque a comoção pública, quando não obriga a mudar nada, sai barata. Depois passa a urgência mediática, não a real: ficam os corredores cheios, as listas intermináveis, os turnos absurdos, as equipas incompletas, a decisão adiada e a velha crença de que a dedicação individual esconde a incompetência colectiva. Não esconde. Apenas adia o momento em que a mentira deixa de conseguir maquilhar-se.

O problema do SRS não é falta de humanidade, mas o abuso dela. Essa humanidade ainda segura o edifício e é justamente aí que o sistema enfia a mão: na disponibilidade de quem fica mais uma hora, troca turnos, resolve e não consegue ir embora porque há alguém em sofrimento. Não se pode pedir a uma enfermeira, a um médico ou a um auxiliar que compense, com o corpo e o sono, anos de desorganização. Mas pede-se, claro, em nome da responsabilidade, da missão, do serviço público e da solidariedade, palavras nobres que, na boca errada, se tornam instrumentos de exploração.

Defender o SRS não é defender o estado triste, gasto e quase indecoroso a que o deixaram chegar. Essa é a confusão que dá muito jeito aos administradores da ruína, porque assim qualquer crítica parece traição, qualquer exigência parece ataque, qualquer pedido de reforma parece falta de amor pelo serviço público. Que comodidade. Transformar a degradação em patriotismo, a incompetência em lealdade, a denúncia em pecado. Defender o Serviço Regional de Saúde é precisamente recusar esta mentira, recusar a sua decadência lenta, a sua habituação à mediocridade, a sua dependência do heroísmo diário de gente que devia trabalhar bem, não trabalhar até se partir. Amar o serviço público de saúde é dizer a verdade: está mal e precisa de ser salvo. Os profissionais não precisam de homenagens nem discursos; precisam de condições, equipas completas, horários humanos, descanso, chefias competentes, organização, respeito e de deixar de ver o seu sacrifício escondido no orçamento.

E nós, cidadãos, também não ficamos inocentes. É mais cómodo culpar “o sistema”, esse fantasma sem rosto, sem voto e sem a nossa assinatura. Mas quem entra numa urgência, consulta, balcão ou enfermaria deve lembrar-se de que, do outro lado, pode estar alguém no limite. Isto não desculpa a desumanidade, mas explica muito. Uma resposta seca pode esconder uma noite inteira de trabalho; um rosto fechado, uma morte recente; uma demora, uma urgência pior do que a nossa; uma falha, muitas falhas que ninguém resolveu. Depois chega o cidadão soberano, cheio da sua importância, a exigir rapidez, simpatia, perfeição e milagre, como se tivesse comprado um serviço de luxo no balcão do destino. A decadência moderna já vem com senha, reclamação e ar condicionado.

O SRS precisa de reforma, mas antes precisa de verdade. Não é salvo por discursos, planos, anúncios ou comunicados; é salvo por pessoas cansadas, competentes e generosas, que continuam a aparecer, a cuidar, a resolver e a segurar com as mãos o que outros deixaram cair. Isto devia envergonhar quem decide e acordar quem assiste. Um Serviço Regional de Saúde que depende todos os dias do heroísmo dos seus profissionais não é robusto: é uma emergência permanente com gabinete de comunicação. E, se continuarmos a tratar seres humanos como máquinas sem manutenção, revisão, descanso ou piedade, a máquina pára. Não por falta de vocação, de entrega ou de amor ao próximo, mas porque tudo o que é humano tem limite.

Até quem passou a vida a cuidar dos outros precisa, por fim, que alguém cuide de si.