O Mundial das nossas crenças
Os preconceitos não aprisionam apenas quem é alvo deles. Aprisionam também quem os transporta
Sentei-me para escrever esta crónica e, de repente, apanhei-me a pensar quando foi a última vez que questionei uma verdade que sempre considerei óbvia.
Daquelas que vivem dentro de nós há tanto tempo que deixamos de nos lembrar de onde vieram.
Daquelas que repetimos sem pensar.
Daquelas que parecem tão evidentes que nunca nos ocorre investigá-las.
É um exercício que faço de tempos a tempos. Uma espécie de limpeza profunda ao meu pensamento.
Ao longo dos anos, a minha experiência como jornalista e master trainer internacional em Programação Neurolinguística ensinou-me que muitas das crenças que mais condicionam a nossa vida são precisamente aquelas que nunca questionamos.
Quantas das ideias que considero minhas foram, na verdade, herdadas?
Estou consciente que também eu carrego ideias que nunca submeti ao escrutínio que exijo aos factos enquanto jornalista. É por isso que olho para este Mundial de uma forma diferente.
Vejo muito mais do que futebol. Vejo mapas mentais a serem desafiados. Vejo crenças antigas a virem ao de cima. Vejo preconceitos a acumularem cartões amarelos. E tenho a sensação de que alguns deles estão finalmente a aproximar-se do cartão vermelho.
A neurociência ensina-nos que o cérebro cria atalhos para interpretar o mundo. Omite. Distorce. Generaliza. Categoriza. É assim que sobrevive. Mas também é assim que se engana. Porque aquilo que começa por ser um atalho tende a transformar-se numa verdade absoluta.
E quando uma ideia permanece tempo suficiente dentro de nós, deixamos de a ver como uma ideia. Passamos a vê-la como realidade.
Foi isso que aconteceu com muitas das narrativas que herdámos sobre povos, culturas e continentes inteiros.
Durante décadas, milhões de pessoas aprenderam a associar determinadas geografias à pobreza antes da riqueza.
À dependência antes da competência.
E a força destas narrativas não reside no facto de serem verdadeiras.
Reside no facto de terem sido repetidas tantas vezes que deixaram de parecer narrativas. Passaram a parecer factos.
Por isso, gosto de fazer algumas perguntas que convidam à reflexão.
Por exemplo, quando pensamos em África, qual é a primeira imagem que surge espontaneamente?
De onde veio essa imagem?
Nasceu da nossa própria experiência?
Ou foi construída por histórias, notícias, filmes e narrativas contadas por outros?
Quantos cientistas africanos conseguimos nomear?
Quantos escritores?
Quantos filósofos?
Quantos líderes históricos?
Destes, quantos nos foram ensinados na escola?
Se sabemos tão pouco sobre um continente com mais de mil milhões de pessoas, será que o problema está em África ou está nas lentes através das quais aprendemos a vê-la?
Porque será que conhecemos tão bem determinados capítulos da história europeia e tão pouco das civilizações africanas que floresciam muito antes da chegada dos colonizadores?
Porque será que tantas pessoas continuam a admirar o Egipto Antigo sem o integrarem verdadeiramente na história africana?
Porque será que ainda nos espanta a excelência quando ela surge de lugares que fomos ensinados a associar à carência?
Que ideias absorvemos sem nunca as questionarmos?
Que crenças herdámos sem nunca lhes pedir provas?
Não por acaso, investigadores de Harvard criaram um teste destinado a revelar associações inconscientes que muitas pessoas desconhecem possuir. Sinceramente, não sinto que precisemos de um teste. Basta uma boa dose de honestidade para observar as imagens que surgem automaticamente na nossa mente.
A Professora Inocência Mata disse uma frase que não me saiu mais da cabeça:
“O racista não é uma pessoa má. O racismo é uma ideologia.” Ou seja, não é uma conversa sobre moralidade e sim, sobre condicionamento.
Sobre aquilo que aprendemos.
Sobre aquilo que normalizámos.
Sobre aquilo que nunca nos ensinaram a questionar.
E agora, há algo profundamente transformador a acontecer diante dos nossos olhos. Pela primeira vez, milhões de pessoas acompanham diariamente equipas, histórias, culturas, bandeiras, hinos e narrativas de países que raramente ocupam o centro da atenção mediática global. E isso importa muito mais do que parece. Vejo pessoas emocionarem-se com histórias que nunca teriam procurado conhecer por iniciativa própria. Vejo adeptos a celebrar jogadores cujos nomes desconheciam há poucas semanas. Vejo crianças a decorar bandeiras de países que não aparecem nos seus manuais escolares. Milhões de pessoas criam ligações emocionais com realidades que antes lhes eram distantes. E a neurociência ajuda-nos a compreender porque isto é tão importante. Os preconceitos raramente desaparecem porque alguém nos diz que estamos errados, ou quando somos acusados, ou porque nos sentimos culpados.
Os preconceitos começam a perder força quando a experiência contradiz a narrativa.
Quando deixamos de olhar para uma categoria e começamos a olhar para uma pessoa.
Quando deixamos de ver um continente e começamos a ver uma história.
Quando deixamos de ver um estereótipo e começamos a admirar um ser humano.
Quando aquilo que conhecemos deixa de nos ser estranho e deixa de caber dentro de um preconceito.
E aquilo que aprendemos a respeitar torna-se muito mais difícil de desumanizar.
A multiculturalidade não nasce dos discursos.
Nasce do contacto. Da curiosidade. Da admiração. Da experiência emocional.
E o desporto tem uma capacidade única para criar tudo isso em poucos minutos.
O maior legado do colonialismo não foi a ocupação da terra. Foi a ocupação da imaginação. Foi a capacidade de definir quem conta a história. Quem aparece nos livros. Quem representa a civilização. Quem representa o progresso. Quem representa a inteligência.
E quem fica condenado ao papel de personagem secundária na narrativa do mundo.
É por isso que este Mundial me parece muito maior do que o futebol.
Cada vez que admiramos a inteligência tática de uma seleção africana, que nos emocionamos com a história de um jogador africano, que reconhecemos excelência onde antes víamos apenas estereótipos, algo acontece dentro de nós. Os velhos mapas começam a rasgar.
As certezas começam a perder autoridade.
A realidade torna-se demasiado rica para caber dentro dos preconceitos.
Tudo isto confirma-me que a vida traz-nos as pessoas e as circunstâncias certas para nos mostrar onde ainda não somos livres.
Este Mundial tem revelado os lugares onde ainda não somos livres.
Livres para questionar. Livres para rever. Livres para abandonar uma narrativa herdada. Livres para trocar uma certeza confortável por uma verdade mais ampla.
Porque os preconceitos não aprisionam apenas quem é alvo deles. Aprisionam também quem os transporta.
E a verdadeira reparação histórica acontece muito antes de um parlamento, de um tribunal ou de um museu. Acontece
no instante em que alguém tem coragem de parar e perguntar: “E se aquilo em que sempre acreditei não passar de uma história que me contaram?”