O fetiche político do PSD por Singapura
Adivinhem quem proferiu as seguintes afirmações: “neste momento, não dispomos de fundos ou apoios para grandes obras infra-estruturais (sobre a queda de pedras na Via Expresso do Seixal); “não, não está atrasado, porque ainda estamos a acabar essa fase, está dentro do prazo (sobre o concurso para a terceira fase do novo hospital que ficou deserto); “a redução da superfície agrícola não é nenhum drama, e até é bom”, “o governo fez muito bem em avançar com este pacote (o laboral), mas fez muito mal em perder tempo nesta concertação social”; “a Madeira procurou fazer uma adaptação do ensino de Singapura”.
Já adivinharam quem? Estas citações davam para vários artigos de opinião, mas vou ficar-me pela tentativa de fazer crer que a Madeira adaptou o modelo educativo de Singapura. O PSD parece ter um fetiche político por Singapura. Lembram-se que durante anos, o Governo Regional promoveu a ideia de transformar a Madeira na “Singapura do Atlântico”, apresentando a Região como moderna, competitiva e tecnologicamente avançada? Agora, diz-se que a educação madeirense adaptou o modelo de Singapura. Pensam que basta distribuir manuais digitais e tablets, colocar quadros interativos nas salas e falar em salas do futuro?
A questão de fundo não é Singapura. A questão de fundo é saber que escola queremos e para que serve a escola? Serve para encher horários, cumprir programas, distribuir equipamentos? Ou serve para formar pessoas capazes de pensar, escolher, compreender o mundo e transformá-lo?
Uma escola não existe para treinar alunos a responder depressa. Existe para os ensinar a perguntar. Não existe para transformar crianças em utilizadores obedientes de tecnologias digitais. Existe para formar cidadãos com pensamento, imaginação, sentido crítico e capacidade de trabalhar com os outros.
É por isso que o essencial não está na tecnologia. A tecnologia pode ajudar, pode ligar a escola ao mundo, pode facilitar trabalho, a investigação e a comunicação. Mas não é o centro. O centro é a relação educativa. É a forma como se aprende. É a cultura da escola.
De que serve a tecnologia se continuamos a ensinar como no século XIX, presos a uma lógica em que o professor fala, o aluno escuta, memoriza e depois debita. A escola tem de estar centrada no aluno e precisa de professores mais respeitados e mais autónomos. O professor não é um animador de plataformas digitais, nem um funcionário administrativo especialista em preencher grelhas. É um intelectual da educação. É alguém que lê a turma, interpreta dificuldades, organiza conhecimento, cria método, acompanha percursos, exige, apoia, orienta e dá espessura humana ao processo de aprender.
Por isso, valorizar os professores é reconhecer, com justiça, o papel essencial de quem todos os dias garante educação de qualidade para as nossas crianças e jovens. O PS tem assumido este compromisso com medidas concretas: a recuperação integral do tempo de serviço prestado, assegurando que nenhum docente vê ignorados anos de dedicação e trabalho; a correção das injustiças criadas pelos regimes transitórios nas alterações da carreira, promovendo maior equidade entre profissionais; o fim dos bloqueios injustificados na progressão da carreira. Temos também defendido a revisão do índice remuneratório dos docentes contratados não profissionalizados, valorizando o contributo de quem garante o funcionamento das escolas em contextos muitas vezes exigentes, e a realização de concursos internos anuais, assegurando maior capacidade de resposta nas escolas. Estas medidas representam um investimento decisivo numa carreira mais digna, atrativa e motivadora, capaz de combater a falta de professores e permitir que os docentes se concentrem no que realmente importa: ensinar melhor.
Há que também devolver-lhes tempo profissional, retirar-lhes burocracia inútil, confiar no seu saber, garantir formação contínua séria e envolver os docentes nas decisões. Uma política educativa que esgota professores está condenada a falhar. Tal como está condenada a falhar uma política que esquece o pessoal não docente. A escola não é feita apenas dentro da sala de aula, faz-se também nos recreios, nas bibliotecas, nos refeitórios, nas portarias, nas secretarias das escolas.
A Madeira não precisa de ser uma cópia de ninguém. Deve afirmar-se com identidade própria, professores respeitados, escolas com autonomia e um modelo educativo que ensine os alunos a pensar, criar e viver em liberdade. A educação é importante demais para servir de cenário de propaganda.