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Crónicas

Saí Por Razões Locais, Hoje Sairia Por Razões Nacionais

Quando saí da Iniciativa Liberal, ou daquilo que então ainda se chamava assim com alguma esperança, as razões eram sobretudo locais, feitas dessa matéria pegajosa de ilha pequena, conversas ao ouvido, ambições de corredor, pequenos ressentimentos embrulhados em grandes palavras, e aquela antiga capacidade madeirense de transformar uma ideia num quintal, uma causa numa chave de porta e um partido numa sala estreita onde cada um mede o outro pelo tamanho da sombra que projecta na parede. Nada que surpreendesse muito.

Mas o tempo, que tem o péssimo hábito de continuar apesar da nossa paciência, foi acrescentando outras razões às primeiras. E essas já não eram locais. Eram nacionais. Vinham de Lisboa, dessa grande máquina de produzir solenidades vazias, discursos com gravata e convicções de quinze minutos, e mostravam que o problema não estava apenas na periferia, no acidente regional, na pequena intriga doméstica. Estava no centro. Estava na casa-mãe. Estava no sítio onde se devia guardar as ideias e onde, afinal, se ia arrumando a doutrina na arrecadação, ao lado dos cartazes antigos, das promessas inconvenientes e das fotografias de campanha que já ninguém queria ver.

Durante algum tempo tentei separar as coisas. Uma coisa era a Madeira, outra coisa era o País. Uma coisa era a província política, outra coisa era o projecto nacional. Uma coisa era o ruído local, outra coisa seria, pensava eu, a ideia liberal em estado mais puro, mais sólido, mais defensável. Tinha graça esta ingenuidade. Um homem também se permite, de vez em quando, pequenas formas de estupidez privada. A verdade é que, à medida que via a Iniciativa Liberal na Assembleia da República, nas suas votações, nas suas propostas, nas suas poses, nas causas que escolhia e nas causas que discretamente deixava cair, ia percebendo que a distância entre o defeito local e o defeito nacional talvez fosse menor do que me convinha acreditar.

O partido que se apresentou como liberal começou por ser, pelo menos na aparência, mais do que uma irritação fiscal bem vestida. Não era apenas uma associação de contribuintes mal-humorados, nem uma pequena capela de gestores com saudades de um país que nunca existiu, nem uma direita com vergonha do nome e gosto por palavras inglesas. Dizia querer juntar liberdade económica, liberdade individual, responsabilidade, pluralismo, tolerância, desconfiança perante o Estado e perante todos os poderes que, com a desculpa de nos protegerem, acabam quase sempre por nos pôr a trela. Era pouco para salvar o mundo, que felizmente não se salva, mas era bastante para incomodar Portugal, esse velho animal adormecido sobre formulários, subsídios e ressentimentos.

Hoje vê-se outra coisa. Vê-se um partido que conserva a palavra liberal como quem conserva uma fotografia antiga na carteira, não por amor, mas por hábito. A palavra está lá. Aparece nos comunicados, nos cartazes, nas intervenções, nas frases curtas para consumo de gente apressada, essa multidão contemporânea que já não lê, mas reage, que já não pensa, mas comenta, que já não discorda, mas denuncia. Só que a palavra deixou de mandar. Deixou de organizar. Deixou de ferir. Passou a servir de enfeite, de etiqueta, de verniz. E quando uma palavra deixa de ser princípio para passar a ser adorno, já não estamos no domínio das ideias. Estamos no domínio da decoração.

Nas votações e nas propostas, percebe-se, com uma clareza quase cruel, que a Iniciativa Liberal foi se afastando de uma visão integral do liberalismo para se aproximar de nichos, esses pequenos altares modernos onde a política vai rezar quando já não tem fé. Nichos eleitorais, nichos mediáticos, nichos culturais, nichos de indignação prontos a usar. O partido que dizia querer libertar o indivíduo parece hoje demasiado ocupado a calcular qual fatia do público deve agradar esta semana. Mudou o vocabulário, mas não mudou a velha tentação portuguesa de trocar uma doutrina por uma clientela. Apenas se modernizou o vício. Antigamente compravam-se dependências com empregos, subsídios e favores. Agora cultivam-se tribos com sinais, poses e indignações calibradas. Progresso, como se vê, é uma palavra muito generosa.

O liberalismo social, que talvez fosse a parte mais interessante, mais civilizada e mais europeia do projecto inicial, tornou-se uma espécie de parente incómodo sentado à mesa do jantar. Está ali, ainda se fala dele quando convém, mas todos preferiam que comesse depressa e não fizesse perguntas. Porque o liberalismo social obriga a pensar a liberdade como um todo e não como uma gaveta fiscal. Obriga a perceber que a liberdade económica não vale grande coisa se vier amputada da liberdade civil, da autonomia pessoal, da tolerância real, da defesa do indivíduo contra o Estado, contra a maioria, contra as morais públicas de ocasião e contra os pequenos polícias da alma que nascem em todos os partidos, mesmo nos que dizem combater a polícia da alma dos outros.

Esse liberalismo, que era o melhor que o partido prometia, parece hoje ligado a uma máquina, num quarto discreto, sem visitas, enquanto cá fora se discute o comunicado fúnebre. Não digo que esteja morto. Seria talvez injusto. Mas há mortos que respiram por aparelhos e ideias que continuam a aparecer nos documentos só porque ninguém ainda teve a coragem, ou a decência, de lhes passar a certidão de óbito. O enterro virá, naturalmente, com palavras asseadas. Chamar-lhe-ão de reposicionamento, maturidade, estratégia, clareza, talvez até crescimento. Em Portugal, nunca se mata uma ideia. Dá-se-lhe uma designação técnica e espera-se que ninguém repare no cheiro.

O mais grave é que nada disto foi imposto por uma catástrofe exterior. Não houve invasão, perseguição, derrota inevitável, tirania adversária. Ninguém obrigou a Iniciativa Liberal a estreitar-se. Ninguém a condenou a trocar a amplitude do liberalismo por um conjunto de reflexos parlamentares, irritações selectivas e gestos pensados para a espuma do dia. Foi uma escolha. E as escolhas são coisas perigosas porque, ao contrário dos discursos, ficam. Ficam nas votações. Ficam nas alianças tácitas. Ficam nas omissões. Ficam naquilo que se defende e, sobretudo, naquilo que já não se tem coragem de defender.

Um partido liberal não existe para ser a secção fiscalmente excitada do regime, nem o adereço respeitável de pulsões que pouco ou nada têm de liberais, nem o pequeno laboratório onde se testa até que ponto se pode conservar o rótulo depois de esvaziado o conteúdo. Um partido liberal existe para defender o indivíduo contra todos os poderes que o esmagam, incluindo os poderes simpáticos, os poderes populares, os poderes que dão votos, os poderes que aparecem na televisão com ar indignado e os poderes que entram pela porta das traseiras, disfarçados de bom senso.

Quando um partido abandona essa missão, pode continuar a chamar-se liberal. Pode até crescer, eleger mais deputados, fazer mais barulho, encher mais ecrãs, produzir mais frases, sorrir melhor nos cartazes e descobrir, com grande alegria contabilística, que a incoerência também tem mercado. Não seria a primeira vez que uma ruína se torna ponto turístico. Mas aquilo que se perde não se mede em sondagens. Perde-se a razão de existir. Perde-se a diferença. Perde-se a autoridade para falar de coerência. Perde-se, sobretudo, a oportunidade rara de construir em Portugal uma direita verdadeiramente liberal, aberta, exigente, desconfiada do Estado, mas também desconfiada das massas, dos moralistas, dos ressentidos e dos vendedores de certezas instantâneas.

Saí por razões locais. Hoje, cada vez mais, são as razões nacionais que me dizem que não saí cedo de mais, até porque o que por cá se passa deixou de ter qualquer significado. Saí, talvez, antes de a casa começar a arder à vista de todos, e acreditem que isso vai acontecer. Há uma estranha paz nisto, a paz amarga de quem olha para trás e percebe que a porta que fechou não dava para a rua, mas para um corredor cada vez mais estreito, cada vez mais escuro, cada vez mais parecido com tudo aquilo que dizia combater.