Europa: necessidade ou ilusão?
Uma visão ampla e humanista da Europa ultrapassa as fronteiras da União Europeia. A Europa é muito mais vasta, estende-se do Atlântico até aos Urais.
A União Europeia tem revelado manifestas dificuldades em ir além da tecnocracia e dos interesses puramente económicos. Surge desacreditada, reduzida a gestão económica e regulatória, perdendo densidade ética e imaginação política.
A Europa deveria constituir-se como um espaço de cooperação em áreas de interesse comum — como o desenvolvimento económico, o progresso social, a paz ou a proteção ambiental. A Europa poderia avançar para um projeto de cooperação entre Estados soberanos, baseado na igualdade, na solidariedade e no respeito pelas especificidades de cada povo.
Porém, um projeto desta natureza só seria possível se a Europa alguma vez tivesse assumido um projeto humanista plenamente coerente.
Mesmo quem não partilha essa posição pode reconhecer o ponto de fundo: valores proclamados precisam de tradução concreta na vida dos povos. Sem políticas orientadas para a paz e cooperação, para os direitos sociais, políticos e culturais dos povos, qualquer discurso humanista corre o risco de ser vazio.
Do lado da União Europeia o que existe — e sempre existiu — é uma tensão entre impulsos humanistas e dinâmicas de exclusão, dominação ou tecnocratização. O que vemos são sinais claros de desgaste no horizonte mobilizador europeu.
Por um lado, a União Europeia construiu um quadro relevante de direitos, liberdades e cooperação. Mas, esse quadro tornou-se distante, economicista ou incapaz de responder a desigualdades persistentes, inseguranças sociais e desafios globais como migrações, alterações climáticas ou conflitos geopolíticos.
Assim, a questão talvez não seja apenas se falta um projeto humanista, mas se a Europa será capaz de o construir sem ignorar as suas próprias contradições. O ponto axial é se a Europa será capaz de vencer ódios e antagonismos primários e edificar um projeto onde os problemas são interligados e exigem uma abordagem sistémica e não apenas local ou setorial.
Um projeto humanista não significaria simplesmente proclamar ideais abstratos, mas reinventá-los à luz do presente — entrelaçando línguas, tradições, memórias e identidades múltiplas; integrando diversidade cultural, justiça social, sustentabilidade e participação democrática.
Proteger línguas, culturas e identidades significa também resistir a uniformizações — sejam elas económicas, tecnocráticas ou ideológicas — que empobrecem o tecido humano.
Contra toda a desesperança, continuo a defender que o nosso futuro comum precisa de uma Europa como comunidade de valores: dignidade humana, solidariedade, acolhimento e diálogo entre povos e culturas.