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Só se estragava uma cadeia

Tenho saudades do jornalismo feito apenas na comunicação social

Eu só sei uma coisa. Se eu mandasse, as funcionárias da creche que andavam a maltratar criancinhas no concelho do Seixal, eram detidas no mesmo lugar que os polícias que maltrataram detidos. Para fazerem o mesmo uns aos outros. Pronto. Problema resolvido dentro de quatro paredes, o país seguia impávido e sereno e tudo voltava ao normal. Voltávamos a ver reality shows onde um tipo pôs um par de galhos à namorada, podíamos voltar a ficar atónitos com as declarações da Cristina Ferreira e, nos intervalos, falávamos dos reforços do Marítimo para a próxima época.

Para que conste, não acompanho nenhum dos últimos assuntos e continuo a ligar a televisão o mínimo possível, para manter a minha sanidade mental, mas saber que os tipos que os portugueses sustentam para fazer cumprir a lei e passar multas de estacionamento andam a praticar crimes hediondos, tira-me do sério. Até a hora a que estou a escrever, um segurança privado alegou não ter nada a ver com o assunto e queria ficar em casa a aguardar julgamento. Tirando esse polícia de brincar, estavam bem mais de 20 agentes com a cabeça no cepo à espera de ir hoje a tribunal. Este é daqueles meses que confesso que não queria escrever, mas é mais forte do que eu. Quem é que faz exames psicológicos a esta gente? Quem é que ainda não se lembrou de destacar psiquiatras para estes tipos, de seis em seis meses, fazerem exames rigorosos?

Que país é este em que se dá uma farda a um tipo e uma arma (para não falar no bastão com que um homem foi sodomizado) e nunca mais lhe vê se os neurónios estão bons ou se fritaram a pipoca como o meu “amigo” que foi para Santa Maria, nos Açores, mostrar bebés nados-mortos nas redes sociais? Grande Delegado de Saúde. Outro que não levaram ao psiquiatra. Deve estar contente por eu andar a falar dele outra vez.

Que país é este em que profissionais que lidam com crianças, diretora incluída, metem as cabeças dentro dos pratos da sopa e tratam-nos aos empurrões, estaladas e pontapés? Depois admiram-se do outro ter cada vez mais votos. Já tenho medo de ver televisão. Redes sociais, cada vez menos. Tenho saudades do jornalismo feito apenas na comunicação social.

Enquanto isso, o meu lado mau vai imaginando o irmão do Nininho, por sinal polícia, a fundar uma banda com os outros na cadeia, qual Gipsy Kings de Évora e as educadoras e auxiliares da creche a fazer coro. E esperando que o país, que todos os dias acorda com uma desgraça maior do que a outra, acerte o passo e encontre dignidade. Porque uma instituição como a PSP não pode ficar queimada por algumas dezenas (espero que não chegue às centenas) de frustrados que mancham as fardas que vestem. E depois, como eu costumo dizer, a louca sou eu.