Um Povo de Primeira
Começou em abril e acabou em maio: da festa da Autonomia que o Governo não organizou, tratou o Povo - e tratou através do maior símbolo coletivo da Madeira: o Club Sport Marítimo. Não me interpretem mal: outros terão festejado através dos seus, enquanto esperam por uma confirmação adiada, mas festa da Madeira como esta nunca vi igual. Um orgulho coletivo assim? Nenhum.
Quem teve a feliz oportunidade de estar em Torres Vedras, no Seixal e no Funchal ao longo das últimas três semanas, compreenderá melhor aquilo de que falo. Foi Madeirensidade em estado puro. Não foi só futebol. Quando se fala do Marítimo, talvez nunca seja, porque este Clube fez-se extensão da Madeira além-mar: do nosso Povo, da nossa casa, da família, dos amigos, de quem somos e de onde vimos. Foi de arromba, porque da dimensão de um Povo inteiro, que veio de uma ilha pequena para se fazer gigante, por esse mundo além.
Foram três semanas de intensidade máxima: de novas e velhas gerações; de homens e mulheres; de camisolas, cachecóis, barretas e bandeiras do antigamente desfraldadas ao vento, que se foram buscar a armazéns nos confins do mundo, para gritarmos a uma só voz: “deixem passar o bailinho da Madeira, porque somos o Marítimo, de um Povo de Primeira”.
Nos Barreiros, estavam quase todos lá. As crianças que construíram o muro da esperança de verde-rubro vestido. As Mães de Primeira que educaram gerações sucessivas de Maritimistas. Os pais e os tios que fizeram de nós sócios como eles. Os conhecidos de amigos, que se fizeram amigos também. Os “cubanos” de sangue que se fizeram Madeirenses de gema de coração. O filho da Madeira dos emigrantes, que marcou o primeiro golo do futuro Campeão. A crença dos Maritimistas, que puxou o segundo para dentro da baliza. A confirmação do fim do pesadelo, que chegou com o terceiro.
Só o líder máximo da elite que nos governa escolheu não estar. Promessas, só pintadas de preto e branco, entre notícias e manchetes de glória passadas, pouco imparciais. Provavelmente contrariada, parte da elite esteve - e juntou-se à festa do Povo, que assim se fez a festa de todos, sem exceção. Como se faz sempre, porque o Povo do Marítimo aceita todos - como iguais, todos um. É a beleza de um Clube sem partidos, sem credos, sem cores que não sejam o verde-rubro do coração. É a beleza da curva: sem classes, sem profissões, apenas rugidos de grandes e pequenos leões.
Um Marítimo sem donos - que o Povo mudou uma vez porque o queria grande na Primeira. Mudou duas, porque o queria de volta à Primeira. Que mudará as vezes que forem precisas, sempre que e quando for preciso, em nome de um sonho maior: agora, ser ainda mais de Primeira do que dizem que ele pode ser - o Povo e o seu Clube. Quando nos disseram “impossível”, dissemos “presente”. Sempre que nos tentarem enganar ou diminuir, diremos de novo.
O Povo do Marítimo agigantou-se, inspirado pelo exemplo do Dinarte na curva e do Pedro Camacho pelo país fora. O Povo da Madeira celebrou, embalado pela esperança no futuro de jovens como a Merícia, que conhece mais mundo, e pelo orgulho regional de quem leva tatuado na pele e na alma do olhar o mapa da Madeira, como a Mafalda. Peguem na insígnia dos 50 anos da Autonomia e entreguem-na a gente assim: Madeirenses de verdade, Madeirenses de Primeira.
No sábado, no Caldeirão, com 11 mil almas destas, só era possível ganhar. Com 250 mil na Madeira e centenas de milhares espalhadas pelo mundo fora, deem-nos com que sonhar e venceremos de novo: com um Governo melhor; com uma Autonomia maior; com uma Madeira de Primeira.
Viva o Marítimo. Viva a Autonomia. Viva a Madeira. Viva o Povo da Madeira!