Uma Madeira mais BANI
Crescemos a ouvir que a Madeira é pequena. Que vivemos num meio pequeno. Ser jovem, na Madeira, em tempos de incerteza, não é nada fácil. Vivemos num mundo cada vez mais BANI — frágil, ansioso, não linear e incompreensível. O conceito, criado pelo antropólogo Jamais Cascio, veio substituir o já antigo acrónimo VUCA e descreve, com alguma precisão, o sentimento de desorientação que marca a nossa geração. Tudo muda depressa, nada parece garantido e as regras do jogo social e profissional transformam-se antes que consigamos sequer compreendê-las. Pior ainda: os algoritmos dominaram os nossos telemóveis, mudaram as nossas preferências e roubaram a nossa atenção, criando, ao mesmo tempo, a ilusão de que somos jovens informados.
Na Madeira, esta sensação ganha contornos ainda mais concretos. Ser jovem aqui é enfrentar uma corrida de obstáculos, em que até os serviços públicos parecem contribuir para a ansiedade coletiva. Esperar meses por um simples documento oficial; enviar dezenas de candidaturas sem obter sequer uma resposta; e, ainda assim, ter a sensação de estar parado no mesmo lugar. Pergunto-me: quantos cursos, formações e seminários serão necessários para chegar a uma segunda fase de entrevista?
Fala-se muito em reter talento, mas raramente se discute o que significa viver num arquipélago onde o custo de vida cresce, as oportunidades são poucas e o mérito parece um conceito relativo. A juventude madeirense quer ficar, contribuir, construir futuro aqui. Mas como permanecer num lugar que tantas vezes nos empurra para fora?
Sair da Madeira para estudar ou trabalhar continua a ser, para muitos, menos uma escolha e mais uma imposição. O custo financeiro associado, nomeadamente de viagens, alojamento e propinas, por exemplo, representa um obstáculo significativo, sobretudo para famílias que não têm capacidade para suportar esse investimento. A isto soma-se o custo emocional de deixar para trás a nossa rede de apoio, a nossa família e as amizades mais antigas. Assim, a mobilidade, que deveria ser uma oportunidade de crescimento, transforma-se num privilégio acessível apenas a alguns, acentuando desigualdades que começam muito antes da entrada no mercado de trabalho.
Numa ilha onde “toda a gente se conhece”, o acesso a oportunidades nem sempre depende apenas do mérito ou das qualificações, mas também das redes de contactos que cada um consegue construir... ou herdar. Para muitos jovens, isto traduz-se numa sensação de injustiça, de que o esforço, por si só, pode não ser suficiente. Mais do que falta de talento, o que se sente é, muitas vezes, uma dificuldade em entrar nos ambientes certos, alimentando a perceção de que o ponto de partida não é igual para todos.
Talvez a resposta, para este mundo BANI que descrevo, esteja nas artes e na cultura, não como mera escapatória ao mundo real, mas como desvio num tempo em que tudo parece instável e em constante mudança. Com o crescimento da Inteligência Artificial, surge um paradoxo interessante: nunca foi tão fácil produzir conteúdo, e nunca foi tão difícil justificar o valor humano por detrás dele.
“Ninguém mais será formado... quando a velha Academia deixar de cantar o fado.” A arte, a música e a cultura são dimensões essenciais e complementares no percurso académico de qualquer universitário. São elas que nos formam o caráter e trabalham o nosso sentido crítico. Uma formação verdadeiramente completa não se mede apenas em créditos ou diplomas, mas na capacidade de sentir, de interpretar o mundo e de o habitar com mais intenção. Sem essa dimensão, corremos o risco de formar profissionais capazes, mas, por outro lado, cidadãos incompletos.
A música e a vida académica afirmam-se, para muitos jovens, como um verdadeiro espaço de pertença num contexto marcado pela incerteza e pela fragmentação. Mais do que atividades extracurriculares, são espaços onde se criam laços, se partilham experiências e emoções, algo particularmente relevante num meio insular, onde as oportunidades podem ser limitadas. É nas tunas, nos grupos culturais e nos projetos artísticos universitários que muitos encontram não só a sua veia artística, mas também reconhecimento e espírito de comunidade. Por isso, torna-se fundamental que a academia assuma um papel mais ativo no apoio aos jovens das artes, não tratando estas áreas como periféricas, mas como parte integrante da formação. Esse apoio deve traduzir-se em financiamento, investimento em espaços de criação e valorização dos percursos artísticos.
No episódio desta semana do Peço a Palavra, emitido pela TSF Madeira, falámos com três jovens músicos da academia, numa conversa descontraída sobre as dificuldades e os desafios de exercer a atividade artística em contexto de insularidade. Uma conversa que é, também ela, um reflexo de tudo o que aqui falei. Porque a Madeira tem jovens que querem ficar. Falta, muitas vezes, oportunidades que lhes devolvam essa confiança.