O que aconteceu às nossas conversas?
Ser escutado é quase indistinguível de ser amado
“O que aconteceu às nossas conversas?” “Estou a falar contigo e continuas no telemóvel?”
“Estou a ouvir.”
“Não estás.”
“Pronto. Já vais começar.”
Não chegou a ser uma discussão, sequer. Já nem energia havia para isso.
A esplanada estava cheia. Tive a sensação de que só eu me apercebi da conversa daquele casal. À nossa volta, todos estavam igualmente absorvidos pelos próprios telemóveis. E foi impossível não pensar na forma como estamos a perder a capacidade de conversar sem nos defendermos.
Começo a acreditar que a maior solidão dos nossos tempos é falar com alguém que nunca chega verdadeiramente a estar presente. Na prática, é vivermos com uma pessoa e sentirmo-nos completamente sós.
A qualidade das nossas relações depende diretamente da qualidade da nossa comunicação. O mundo mudou. As redes sociais transformaram a forma como nos relacionamos. Vivemos rodeados de palavras, notificações e emojis, mas cada vez mais afastados daquilo que realmente desejamos comunicar. Estamos permanentemente ligados e emocionalmente distraídos. E pior do que isso é já quase nem conseguirmos perceber a diferença entre estar ali e estar realmente presente.
Falamos muito, escutamos pouco.
Reagimos depressa, compreendemos devagar.
Julgamos demasiado, investigamos muito pouco.
Como dizia Stephen Covey, a maioria das pessoas não escuta para compreender, escuta apenas para responder.
Continuo a perguntar-me o que teria acontecido àquele casal se aquela conversa tivesse acontecido de outra forma.
“Quando estou a falar contigo e vejo que continuas no telemóvel, sinto-me triste e desconectada porque preciso de presença e atenção quando estamos juntos. Podes pousá-lo durante alguns minutos para conversarmos?”
E a resposta podia ter sido:
“Obrigado por me dizeres isso dessa forma. Não tinha percebido o impacto que estava a ter em ti. Vou pousar o telemóvel.”
Parece simples. E muda tudo. Porque, na maioria das vezes, por trás de uma crítica existe apenas uma necessidade emocional mal traduzida. Muitas discussões mudariam de direção se, no meio da reação, conseguíssemos perguntar:
“O que estás realmente a precisar neste momento?”
Nenhuma desconexão aparece do nada. Normalmente, vem apenas mostrar aquilo que já andava a faltar há demasiado tempo. Ou aquilo que nunca existiu verdadeiramente, mas uma parte de nós romantizou. As relações começam a morrer quando duas pessoas deixam de conversar para apenas se defenderem. Porque quando atacamos alguém, quase sempre obrigamos o outro a defender-se, fugir ou atacar de volta. E a verdade é que a maior parte das vezes só comunicamos de forma agressiva quando nós próprios estamos feridos. É também por isso que existem tantas guerras de razão dentro das relações.
Muitos casais não acabam por falta de amor. Acabam pelo cansaço de se sentirem constantemente incompreendidos. Pela ausência de escuta. Pela sensação constante de não se sentirem vistos, compreendidos ou emocionalmente seguros dentro da relação. As necessidades emocionais continuam sem ser vistas, reconhecidas ou cuidadas. No fim, todos perdem.
É aí que maturidade emocional é a diferença que faz a diferença. No instante em que deixamos de usar palavras como armas e começamos a usá-las como pontes.
Cada um de nós interpreta a realidade através das suas experiências, crenças e emoções. Todos nós influenciamos pessoas o tempo inteiro, mesmo sem perceber. Através do tom de voz, do silêncio, das palavras que escolhemos e da energia emocional que levamos para uma conversa.
Portanto, deixei de acreditar em conversas onde alguém precisa de vencer. Aliás, nem são conversas.
É bom termos presente que comunicar melhor não é manipular relações. É cuidar delas. É ser intencional. O amor consciente começa aqui. Por exemplo, no momento em que alguém escolhe pousar o telemóvel, baixar o tom de voz, olhar nos olhos e escutar não apenas as palavras do outro, mas sobretudo aquilo que está por trás delas.