Carta Aberta ao Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes
1. Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes,
Li com atenção o seu escrito do sábado passado, nas colunas deste Diário. Começo por lhe deixar bem claro que só odeio coração e bofe. E já me custa bastante gerir essa relação complicada com as miudezas. Não me dou ao luxo de odiar mais nada, até porque o ódio exige energia, tempo e uma espécie de dedicação emocional que prefiro reservar para coisas úteis, como dormir ou tentar perceber porque razão há adultos funcionais que lêem textos como o seu sem desatar a rir às gargalhadas no meio do café. O que sinto pelo CHEGA não é ódio. É desprezo. Um desprezo frio, clínico, quase antropológico. Como quem observa um vendedor de banha da cobra, convencido de que descobriu a pólvora porque grita mais alto do que os outros.
Reconheço que o seu texto é fascinante, não pelo conteúdo, mas pela pobreza intelectual embrulhada em solenidade épica. Creia, Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes, que parece escrito por alguém que passou demasiado tempo entre vídeos motivacionais patrióticos no Facebook e comentários de tasca sobre “a decadência do Ocidente”. A ideia central resume-se a isto: toda a gente que discorda do CHEGA odeia Portugal, odeia a família, odeia a autoridade, odeia as fardas, odeia os velhinhos, odeia bebés e, provavelmente, odeia cães de raça pequena. É a política transformada numa telenovela moral para gente que precisa desesperadamente de se sentir heroína sem sair do sofá.
Depois aparece aquela prosa musculada de calendário de oficina mecânica: “um povo forjado na cruz e na espada”, “um povo que não pede licença para existir”, “do Minho ao Atlântico”. Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes, do Minho ao Atlântico, é particularmente notável por revelar uma relação atribulada com a geografia. É que o Minho é banhado pelo Atlântico; fica ali mesmo e, se a intenção era a de demonstrar uma qualquer grandiosidade equivalente a um “do Minho a Timor”, V. Exa. falhou rotundamente. Portugal acaba no mar. A Madeira, os Açores, isso talvez seja um detalhe incómodo para quem usa o patriotismo como “cosplay” emocional. Comovente aquela sucessão de frases curtas, agressivas, pseudo-bíblicas, como se cada linha estivesse convencida de que vai parar a uma estátua de bronze daqui a trezentos anos. Há ali uma fome de grandeza tão desesperada que quase enternece. Quase.
Mas o mais extraordinário é a construção da fantasia persecutória. No seu artigo, Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes, o CHEGA surge como uma espécie de resistência francesa, como os últimos cavaleiros templários, os defensores finais da civilização perante um exército de jornalistas veganos, professores de sociologia e funcionários da ONU escondidos em cafés da especialidade. É sempre assim com movimentos desta natureza: precisam de imaginar que vivem numa ditadura cultural, mesmo que a cultura lhes passe ao lado, porque, sem inimigos gigantescos, ficam reduzidos ao que realmente são: um conjunto de profissionais da indignação permanente que transformaram o ressentimento em negócio político.
Bonita aquela parte da “voz da autonomia”, que tem a delicadeza intelectual de um martelo pneumático às sete da manhã. O CHEGA, um partido profundamente centralista, estatista e culturalmente uniformizador, apresentado como campeão das autonomias. Valha-nos Deus, Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes, o escrito de V. Exa. é quase arte contemporânea. Faltou só defender que a ARAE é um símbolo do anarco-capitalismo. O discurso vive desta fraude constante: apropria-se de causas locais apenas enquanto forem úteis para arrancar votos de pessoas cansadas, zangadas ou simplesmente fartas de ouvir os mesmos nomes há quarenta anos. Amanhã, se lhe der jeito político, venderá essas mesmas causas com a rapidez com que um turista compra um palhinhas numa loja de souvenires.
A parte mais cómica é esta obsessão com a coragem. “O CHEGA não vacila”, “o CHEGA não pede desculpa”, “o CHEGA resiste”. Pois não. Também um touro a correr contra uma parede não vacila. A ausência de dúvida não é força moral. Muitas vezes é apenas estupidez com excesso de confiança. As pessoas verdadeiramente inteligentes hesitam, questionam-se, corrigem-se. Só os fanáticos e os idiotas confundem teimosia com carácter.
O seu texto inteiro, Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes assenta numa mentira emocional muito simples: a ideia de que Portugal foi destruído por excesso de liberdade e não por décadas de compadrio, baixa produtividade, dependência do Estado, corrupção, proteccionismo económico e mediocridade instalada. Um banho de porcaria que V. Exa. conhece muito bem, ou não tivesse navegado por lá durante tanto tempo. Como se os problemas do país viessem de gays, feministas, imigrantes ou professores universitários, e não da eterna cultura portuguesa do favor (lembra-se?), da cunha (sim?), do chico-espertismo (ora bem!) e da veneração bovina pelo poder. É sempre mais fácil inventar inimigos abstractos do que olhar para a podridão concreta.
No fundo, o CHEGA funciona como muitas seitas políticas ao longo da História. Dá identidade a quem se sente perdido, oferece uma narrativa simples para problemas complexos e distribui uma espécie de heroísmo “low cost” a pessoas frustradas. “Tu não estás zangado porque a tua vida corre mal. Estás zangado porque és um patriota perseguido.” É brilhante do ponto de vista comercial. Intelectualmente, porém, vale o mesmo que um íman de frigorífico com frases motivacionais sobre leões.
E talvez seja isso que mais incomoda, Exmo. Sr. Deputado Francisco Gomes. Não o radicalismo, porque Portugal já viu coisas muito piores. Não a gritaria porque o país sempre teve vendedores ambulantes da salvação nacional. O que incomoda é a mediocridade pomposa. Esta mania de transformar banalidades em epopeias civilizacionais. Essa estética de cruzada histórica montada com frases feitas, testosterona verbal e indignação plastificada. Um país sério olharia para isto como quem olha para um homem vestido de César Augusto a discutir geopolítica num café de um centro comercial. Infelizmente, há sempre quem bata palmas. A humanidade tem esta fragilidade enternecedora de quem grita “Pátria” com a cara de quem acabou de descobrir o fogo.
2. A sabedoria antiga das casas vazias
Há livros em que não se entra: cai-se. Cai-se com o corpo todo, como quem encontra uma cadeira antiga numa casa esquecida e percebe, sem grande aparato, que aquela cadeira já estava à nossa espera. A Península das Casas Vazias, de David Uclés, foi, para mim, um desses livros. Não me trouxe propriamente uma revelação, essa palavra que a crítica usa quando quer parecer baptizada pela literatura, mas devolveu-me algo mais raro: o olhar. Disse-me o que eu já sabia, mas de outro modo. E isso, quando acontece, é quase sempre sinal de grande literatura.
O romance parte da Guerra Civil Espanhola, mas felizmente não fica lá. A guerra, nos bons livros, não é cenário, é doença. Entra pelas cozinhas, pelas camas, pelos apelidos, pelas aldeias, pelas fotografias de família e pelos silêncios que passam de geração em geração como heranças malditas. Uclés percebe isto muito bem. A História não é uma sucessão de datas, generais, proclamações e cadáveres contabilizados por funcionários zelosos. A História é a forma como uma casa fica vazia, como uma família deixa de se falar, como um povo aprende a chamar prudência à cobardia e decência ao medo.
Gostei muito deste livro porque tem a coragem de ser amplo. Não largo por vaidade, como tantos romances gordos que confundem extensão com profundidade, mas largo porque a memória precisa de espaço. Precisa de mortos, vivos, fantasmas, aldeias, objectos, ruínas, vozes, culpas. Precisa de tempo. E o leitor também. Que tragédia, não é? Um livro a pedir tempo numa época em que até a estupidez exige resposta imediata.
Há, no livro, um realismo mágico que não surge como enfeite, mas como necessidade. Quando a realidade é demasiado absurda, demasiado feroz, demasiado inverosímil, o fantástico deixa de ser fuga e passa a ser precisão. Só assim, por vezes, se diz o que os documentos não dizem. O medo dentro das paredes. A vergonha sentada à mesa. Os mortos ocupam mais espaço do que os vivos. A Península Ibérica, neste livro, não é apenas um território: é uma casa imensa, fechada, onde muita gente continua a fingir que não cheira a passado.
Fiquei com a sensação de ter lido um livro antigo escrito hoje. Antigo no melhor sentido: pela paciência, pela gravidade, pela atenção ao que desaparece, pela suspeita de que nenhuma casa fica realmente vazia enquanto houver uma culpa por nomear. Uclés escreveu um romance belo, duro e envolvente. Um daqueles livros que não nos consola, não nos simplifica, não nos faz festas. Apenas nos obriga a olhar outra vez. E isso, nestes tempos de olhos distraídos e almas em modo de notificação, já é quase uma imprudência civilizacional.