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O Milagre da Memória de António Costa: quando o arquiteto do caos se torna crítico de obra

António Costa, esse mestre da sobrevivência política e, ao que parece, recém-licenciado em Observação de Realidades Óbvias, decidiu brindar o Comité Económico e Social Europeu com uma revelação digna de um prémio de originalidade: é “inaceitável” que os jovens em Portugal gastem 100% do salário para pagar uma casa.

Ouvindo-o falar com aquele ar de preocupação institucional, quase ficamos comovidos. Quase. Não fosse o pequeno detalhe de que o “país que ele conhece melhor” é o mesmo que ele governou durante oito longos e penosos anos. É uma espécie de “milagre de Bruxelas”: basta atravessar a fronteira para que a memória se apague e a responsabilidade se transforme em moralismo de bancada.

Costa diz que “não podemos aceitar”. A ironia aqui atinge níveis estratosféricos. É que, enquanto esteve sentado na cadeira de São Bento, ele não só aceitou, como presidiu ao maior agravamento do custo de vida e da crise habitacional da nossa história recente. Foi o Primeiro-Ministro das promessas que ficaram no papel e dos programas que serviram apenas para ocupar tempo de antena nos telejornais.

Recordam-se do programa “Mais Habitação”? Ou das promessas de erradicar as carências habitacionais até aos 50 anos do 25 de Abril? O resultado foi um país onde ter um teto se tornou um luxo para elites ou um sacrifício de uma vida inteira para quem tem a audácia de ser jovem. Durante oito anos, a corda foi sendo colocada ao pescoço de quem queria comprar casa, e a mão que apertava o nó era, curiosamente, a mesma que agora gesticula com indignação em fóruns europeus.

É de uma falta de pudor política notável. Costa fala como se tivesse caído de paraquedas em Portugal ontem à tarde, vindo de uma galáxia distante onde não existem vistos Gold, benefícios fiscais descontrolados para não-residentes e um desinvestimento crónico na habitação pública. Se a situação é um “ultraje” — e é —, o maior ultraje é a desfaçatez de quem causou o problema se apresentar agora como o profeta da solução.

A credibilidade de António Costa no que toca à habitação é equivalente à de um pirómano que, depois de reduzir a floresta a cinzas, aparece a criticar a falta de meios dos bombeiros. Onde estava esta urgência ética quando os preços duplicaram sob o seu olhar atento? Onde estava este humanismo quando as leis do arrendamento se tornaram um labirinto de insegurança?

O percurso de Costa é o epítome da política moderna: governar por anúncio, falhar por omissão e reformar-se em cargos de prestígio com uma aura de santidade. Pelos vistos, no Conselho Europeu, o passado é uma terra estrangeira onde ninguém viveu. Mas para os jovens portugueses, que contam os cêntimos para pagar a renda ou o crédito, o passado de Costa é o presente deles.

É inaceitável, diz ele. De facto, o que é verdadeiramente inaceitável é o descaramento. Se a memória nos falha a todos, resta-nos a realidade. E a realidade é que o “país que ele conhece melhor” continua a pagar a fatura de oito anos de políticas que foram, no mínimo, um fiasco. Mas pronto, lá em Bruxelas, entre um canapé e um discurso inflamado, a consciência parece sempre mais leve. Pena que as casas em Portugal continuem tão pesadas.