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Crónicas

O Povo da Autonomia

A Madeira não começou nos gabinetes, nem nos almoços bem compostos, nem nas fotografias em que há sempre alguém a sorrir com aquele ar satisfeito de quem chegou tarde à história e, ainda assim, exige lugar à cabeceira. A Madeira começou muito antes disso tudo, quando homens e mulheres, sem discursos, sem medalhas e sem assessores, olharam para a rocha e perceberam que, se queriam pão, teriam de arrancá-lo dali. Não havia plano estratégico, nem visão integrada, nem comissão de acompanhamento; essa maquinaria moderna, tantas vezes ocupada a produzir a aparência de movimento onde quase nada se move. Havia enxada, havia suor, havia fome, havia mar, havia vento, havia caminhos íngremes, havia terra dura, havia pedra a mais e pão a menos, e havia gente que aprendeu, desde cedo, que a vida não se pedia: fazia-se.

É esse povo que é o verdadeiro povo da Autonomia. Não a Autonomia das inaugurações, dos discursos redondos, dos lugares reservados e das primeiras filas. A Autonomia de que falo é outra. É a Autonomia das mãos calejadas, dos pés que subiram veredas antes de haver estradas decentes, das mulheres que bordaram à luz fraca enquanto a casa dormia, dos homens que foram ao mar com mais fé do que segurança, dos agricultores que transformaram lombos impossíveis em poios, dos emigrantes que partiram com uma mala pequena e uma saudade enorme, dos pedreiros, dos professores, dos enfermeiros, dos motoristas, dos pequenos comerciantes, dos pescadores, das vendedeiras do mercado, dos que bem receberam e trataram dos de fora, dos que trabalharam sem aparecer, dos que sustentaram filhos, pais e avós sem nunca serem convidados para explicar a sua “visão para a Região”. A maior visão, afinal, talvez sempre tenha sido essa: pôr comida na mesa quando a ilha parecia feita para negar pão a quem nela nascia.

O madeirense conhece a dureza desde a infância. Não precisa que lhe expliquem a escassez num seminário com café servido em chávena branca. Ele sabe o que é falta. Sabe o que é distância. Sabe o que é depender do barco, do avião, do tempo, do preço, do patrão, do Governo, do favor, da cunha, da promessa e, em dias de maior optimismo, da paciência de Deus, que também deve olhar para certas coisas e pedir baixa médica. Mas também sabe resistir. E essa resistência não é palavra bonita para pôr num cartaz. É uma prática antiga, diária, quase física. É levantar cedo, descer e subir a ilha, amanhar terra pouca, pagar renda cara, esperar consulta, apanhar autocarro, trabalhar por ordenados que, muitas vezes, insultam mais do que remuneram, criar filhos num sítio onde tudo custa mais e quase tudo parece decidido por outros.

A Madeira não seria nada sem este povo. Nada. Podíamos ter hotéis, marinas, empresas, nomes sonantes, salas cheias e projectos carregados de palavras estrangeiras, essa praga contemporânea que dá sempre um ar vagamente inteligente ao vazio. Mas sem o povo madeirense, sem a sua paciência feroz, sem a sua capacidade quase absurda de aguentar e continuar, tudo isso ficaria reduzido a cenário. Bonito, talvez. Rentável para alguns, certamente. Mas cenário. A ilha viva está noutro sítio. Está na mulher que apanha dois autocarros para ir limpar casas onde nunca viverá. Está no homem que faz biscates depois do trabalho porque o salário não chega ao fim do mês. Está no velho que sabe o nome de cada pedra do seu poio. Está no jovem que quer ficar, mas, ao olhar para as rendas, percebe que amar a terra não paga sequer a caução. Está na família que manda um filho estudar fora com orgulho e medo, porque todos sabem que uma partida, na Madeira, nunca é apenas uma viagem: é também uma ferida administrada com compostura.

Caracterizar o povo madeirense é falar de uma inteligência prática, desconfiada, rápida, às vezes áspera, mas profundamente humana. O madeirense aprendeu a desconfiar dos grandes entusiasmos porque viu demasiada promessa morrer na primeira curva. Tem humor porque, sem humor, esta ilha já teria enlouquecido de solenidade. Tem orgulho, mas raramente o veste de modo pomposo. Tem uma relação estranha com a autoridade: respeita-a quando deve, atura-a quando tem de ser e desmonta-a no café com uma precisão que dispensaria metade dos comentadores profissionais. O madeirense observa. Mede. Cala. E depois, quando fala, muitas vezes diz numa frase aquilo que outros embrulham em vinte páginas. É uma sabedoria sem aparato, portanto, naturalmente mal compreendida por quem confunde linguagem complicada com pensamento profundo.

Este povo também tem defeitos, evidentemente. Ainda não foi descoberto um agrupamento humano sem parvoíce, medo, inveja, vaidade e tendência para acreditar no primo que “tem lá uma pessoa conhecida”. Somos, muitas vezes, demasiado tolerantes com o abuso, demasiado resignados perante o poder, demasiado habituados a agradecer o que nos é devido. Fomos educados durante demasiado tempo a confundir direito com favor, serviço público com esmola e proximidade com dependência. Mas até isso tem explicação. Durante gerações, muita gente aprendeu que sobreviver implicava não levantar a cabeça mais do que o necessário. O problema é que uma Autonomia adulta não pode viver de cabeça baixa. A Autonomia verdadeira exige um povo de pé, não um povo decorativo, chamado apenas para bater palmas, votar de quando em vez e desaparecer de seguida para o seu lugar habitual na engrenagem.

A grandeza da Madeira não está apenas em quem investiu, arriscou ou criou riqueza visível. Isso conta, naturalmente. Seria infantil fingir o contrário, e a infantilidade já tem representantes suficientes. Mas a riqueza visível assenta quase sempre numa riqueza invisível: a dos que trabalham por trás, a dos que servem, constroem, limpam, ensinam, cuidam, transportam, plantam, pescam, carregam, vendem, consertam e sustentam. A economia não é uma fotografia com três ou quatro rostos ao centro. É uma multidão sem legenda. É a soma de milhares de vidas que raramente entram na crónica oficial, porque a crónica oficial gosta de nomes, cargos e resultados. O povo, esse inconveniente estatístico com alma, aparece depois, quando é preciso falar de identidade, tradição ou sacrifício. Muito bonito. Muito comovente. Muito útil, sobretudo quando não se pretende mudar grande coisa.

A Autonomia nasceu, ou devia ter nascido, para libertar a Madeira da distância, da tutela, do esquecimento e da menoridade política. Mas não há Autonomia digna desse nome se ela servir apenas para trocar a tutela de Lisboa pela tutela de uma pequena sociedade local satisfeita consigo mesma. A Autonomia não pode ser uma sala fechada onde alguns decidem e muitos obedecem. Tem de ser uma responsabilidade partilhada, uma exigência colectiva, uma forma de dar ao povo madeirense condições reais para viver melhor, escolher melhor, trabalhar melhor, criar melhor e não depender eternamente do favor de quem manda. Porque a pergunta é simples, embora pareça perigosa para certas almas delicadas: de que serve a Autonomia se o madeirense comum continua apertado pelo custo de vida, pela habitação impossível, pela mobilidade cara, pelos salários baixos e pela sensação de que a ilha pertence sempre um bocadinho mais aos outros do que a si?

O povo madeirense merece mais do que homenagem. Homenagens são baratas. Às vezes nem IVA moral pagam. Merece respeito institucional, liberdade económica, justiça no acesso às oportunidades, escola exigente, saúde que funcione, transportes decentes, habitação acessível e uma relação limpa com o poder. Merece que se pare de o tratar como massa de manobra ou figurante de festa. Merece que se reconheça que a sua dignidade não está no folclore, embora o folclore tenha o seu lugar; está na capacidade de viver sem pedir licença para existir. A poncha, o bailinho, o bordado, a banana, a levada e a festa são importantes, claro. Mas a identidade de um povo não pode ser reduzida a postal. O madeirense não é adereço regional. É sujeito histórico. Foi ele que fez a ilha habitável. Foi ele que transformou a fragilidade em casa, a pedra em sustento, o isolamento em carácter.

Por isso, quando se falar da Madeira, convém começar pelo princípio. Antes dos nomes grandes, há a gente anónima. Antes dos êxitos individuais, há um povo inteiro que abriu caminho. Antes da prosperidade exibida, há sacrifícios herdados. Antes da Autonomia institucional, há uma Autonomia mais funda, mais antiga e mais nobre: a de quem nunca pôde esperar que lhe resolvessem a vida e, mesmo assim, resolveu parte dela com as próprias mãos. Sem esse povo, a Madeira seria apenas uma rocha bonita no Atlântico, excelente para fotografias, discursos e negócios de ocasião. Com ele, é uma comunidade. Com ele, é memória. Com ele, é futuro. E quem se esquece disto não percebe a Madeira; apenas a utiliza, o que, convenhamos, é uma especialidade antiga e bastante bem praticada por cá.