Ordem em queda, identidade em alta e a clivagem do ocidente
Durante décadas o Ocidente reconfortou-se com a ideia de que o mundo podia ser organizado por regras, negociado por instituições e estabilizado por consensos. Era, em grande medida, a promessa de Francis Fukuyama de uma convergência para democracias liberais, após a queda da URSS e o fim das grandes disputas ideológicas - o «fim da História». Hoje, no entanto, parece emergir uma realidade mais próxima da inquietação de Samuel Huntington: um mundo fragmentado por civilizações e identidades. A diferença é que essa fragmentação já não é apenas externa, ela atravessa o próprio Ocidente.
Estando agora em causa interesses percebidos como existenciais, a negociação deixa de incidir apenas sobre interesses materiais e passa a envolver reconhecimento e dignidade, dimensões muito menos negociáveis. É neste ponto que a leitura de Huntington ganha força. O Direito recua e a força ganha primazia, num contexto em que o medo assume um papel central. A ordem internacional baseada em regras perde capacidade de orientar comportamentos, deixa de ser sentida como suficientemente legítima, a identidade endurece e o conflito intensifica-se.
Os conflitos no Médio Oriente, assim como a guerra entre Rússia e Ucrânia, são exemplos onde várias fragilidades se cruzam.
Israel atua a partir de uma memória marcada pela vulnerabilidade histórica do povo judeu, sustentado na ideia de que a segurança nunca pode ser garantida. Golda Meir, quando afirmou que “os judeus não têm mais lugar para onde ir, e é essa a nossa maior força”, traduziu essa consciência existencial. A Palestina vive com uma experiência contínua de perda e de injustiça que molda a sua identidade coletiva. O Irão afirma-se como oposição a uma ordem que considera dominada pelos Estados Unidos e por Israel. Os cálculos não são apenas racionais, todos procuram preservar narrativas que lhes permitem manter coerência identitária e sentido existencial.
A guerra na Ucrânia ilustra bem esta sobreposição. É simultaneamente um confronto entre modelos políticos - democracia liberal vs autoritarismo -, e um conflito identitário, onde a Rússia se afirma como uma civilização com pontos de contacto, mas distinta do Ocidente. Há ainda um terceiro plano, menos visível, o psicológico, pois a narrativa russa carrega marcas de humilhação e perda de estatuto pós-imperial, enquanto o Ocidente reage com ansiedade perante a erosão da ordem internacional que construiu.
Ao horizonte soma se a rivalidade EUA China, prenunciando novos embates entre modelos e identidades.
Mas o fenómeno mais revelador talvez seja interno ao Ocidente. Os conflitos no Médio Oriente ampliaram fissuras preexistentes, e em muitas sociedades liberais o debate polarizou-se em posições morais incompatíveis. Fukuyama, inspirado em Hegel, via a História como busca de reconhecimento, acreditando que a democracia liberal poderia responder a essa exigência. No entanto, alertava para o risco de sociedades acomodadas, centradas no consumo e conforto material, e privadas de grandes causas, tornarem-se mais apáticas e vulneráveis a um vazio existencial difuso, próximo daquilo que Nietzsche descreveu como o «último homem», uma condição que facilita radicalismos.
Num tempo de incertezas, crises de identidade e excesso de informação emocionalmente carregada, as sociedades simplificam a realidade e perdem tolerância à ambiguidade, acantonando-se em narrativas fechadas e defensivas. O outro deixa de ser interlocutor e passa a ser percebido como ameaça; as posições endurecem em torno de «nós» e «eles». A complexidade persiste, mas deixa de ser reconhecida, e o espaço para nuances esvazia se no debate público.
O Médio Oriente deixa, assim, de ser uma exceção distante e funciona como espelho destas dinâmicas. E quando o medo cresce, a razão recua; quando a identidade se fecha, a humanidade do outro é negada. O maior risco pode não ser o choque entre civilizações, mas a incapacidade crescente de coexistir dentro da mesma sociedade, fragmentando o Ocidente e afastando-o do sentido comum que o sustentava. É uma tensão que também nasce das escolhas políticas e institucionais, mas que não se resolve apenas nesse plano, porque toca dimensões mais profundas de identidade e pertença e se reflete na forma como reconhecemos, ou deixamos de reconhecer, o outro. No fundo, a questão talvez não seja apenas política, mas humana, até que ponto conseguimos viver com o outro sem precisar de o eliminar, simbólica ou literalmente.