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Farol mundial da democracia perde luz

A liderança de uma potência mundial como os EUA, implica uma atuação prudente e previsível

A atuação do atual presidente dos Estados Unidos da América (EUA) continua a ser alvo de intenso escrutínio público e mediático, levantando sérias questões sobre a adequação do seu comportamento às exigências de uma liderança global. O papel do líder duma nação como os EUA, ou de uma qualquer figura com influência determinante na política internacional, exige não só capacidade de decisão, mas também uma postura marcada pela responsabilidade, pelo respeito institucional e pela promoção da estabilidade. Observa-se, no entanto, e frequentemente, um estilo de intervenção que privilegia o confronto em detrimento do diálogo, com declarações públicas completamente inadequadas, carregadas de críticas diretas a adversários políticos, instituições, líderes de outros países e até aliados, contribuindo para um ambiente incendiário e de polarização acentuada.

Este tipo de abordagem é fragilizador da coesão interna e externa e dificulta a construção de consensos, fundamentais numa sociedade democrática. Um líder com a visibilidade e o impacto do presidente dos EUA deveria, idealmente, atuar como elemento agregador, capaz de unir diferentes setores em torno de objetivos comuns. No plano internacional, a situação é também ela, geradora de perplexidade e muita preocupação. Os crescentes problemas com a produção e distribuição de energia (petróleo e gás natural) vinda do Golfo Pérsico, com efeitos mundiais gravíssimos, a que o mundo assiste e sofre neste momento, poderão espelhar as consequências de uma intervenção militar no Irão, aparentemente pouco refletida e consequentemente precipitadíssima. A liderança de uma potência mundial como os EUA, implica uma atuação prudente e previsível, alinhada com princípios diplomáticos sólidos e onde o direito internacional seja a bússola orientadora. Posicionamentos considerados impulsivos ou pouco consistentes, são geradores de incerteza entre aliados e parceiros estratégicos, e a confiança nas relações internacionais constrói-se com base na credibilidade e na estabilidade, fatores que potencialmente ficam comprometidos quando o discurso político se afasta desses padrões. Outro ponto crítico diz respeito à relação com a verdade factual e com os meios de comunicação social. A insistência em descredibilizar órgãos de comunicação social e em questionar informações verificadas, contribui para um ambiente de desconfiança generalizada. Este fenómeno é particularmente sensível numa era em que a disseminação de informação é rápida e, por vezes, difícil de controlar. Um líder com responsabilidades desta magnitude, tem o dever de promover a transparência e o respeito pelos factos, em vez de alimentar dúvidas que podem enfraquecer o funcionamento das instituições democráticas. Depois, acresce ainda a dimensão simbólica do cargo. O presidente dos EUA representa não apenas o seu país, mas também um conjunto de valores associados à democracia, à liberdade e ao Estado de direito. Atitudes consideradas pouco dignificantes, como o recurso a linguagem agressiva ou a desvalorização de normas de civismo político, acabam por comprometer essa representação e por afetar a imagem internacional do país. Em suma, a atuação presente do atual líder dos EUA continua a suscitar um debate profundo sobre os limites e as responsabilidades da liderança política contemporânea e independentemente das posições ideológicas, é amplamente reconhecido que o exercício de funções com impacto global exige uma conduta que inspire confiança, promova o respeito institucional e contribua para a estabilidade, tanto a nível interno como no cenário internacional. A democracia só sobrevive se as suas lideranças estiverem à altura do seu exercício e do seu tempo.