IA nas empresas: a necessidade que se impõe às dificuldades e dúvidas
Os desafios das empresas, e, por conseguinte, dos empresários, sempre foram muitos e, recentemente, foram impactados por uma pandemia e pela escalada de conflitos externos, tanto de base comercial e política como militar. À capacidade de gestão dos mesmos, associa-se a necessidade de adaptação às tecnologias e à inovação como fatores críticos de sucesso.
A Inteligência Artificial (IA) – à partida uma mera tecnologia – não é exceção e começa a assumir um papel central no desenvolvimento potencial dos negócios e tende a tornar-se num elemento-chave de competitividade na medida em que pode acelerar, viabilizar, reconfigurar e, até, transformar a inovação.
Ainda que a sua adoção se revele profundamente desigual entre geografias e setores, segundo o Eurostat na Europa a 27 cerca de 20% das empresas com mais de 10 trabalhadores utilizavam IA em 2025. O ranking era liderado pela Dinamarca com 42% e Portugal registava 12%, um valor muito inferior ao de Espanha que tinha o valor da média da Europa, pese embora tenha iniciado o seu percurso em 2021 com os mesmos 7% que Portugal.
Mas como o todo não é homogéneo é justo que se saliente que das empresas portuguesas com recurso à IA em 2025 cerca de 67% são médias e grandes empresas (mais de 50 trabalhadores). Este, e outros dados complementares, permitem-nos concluir que quanto maior a dimensão da força de trabalho maior é a capacidade de investir e de se adaptar à IA.
E a homogeneidade também não se verifica perante os setores de atividade, pois as empresas das Tecnologias de Informação e Comunicação são, compreensivelmente, 52% do esforço em IA. Por exemplo, o Alojamento e Restauração representa 8%, o mesmo que o Comércio; os Transportes e Armazenagem 15% e a Indústria e Energia 10%.
Se ajustarmos a lente para a Região Autónoma da Madeira onde nove em cada dez empresas são microempresas (até 9 trabalhadores) e onde 45% das empresas concentram a sua atividade na área dos serviços – comércio, turismo, alojamento e restauração, transportes e logística entre outras atividades – consegue-se depreender que a trajetória de adoção da IA pelas empresas regionais é exigente e não está isenta de ónus.
Passando dos números, que normalmente são a consequência, para o intangível que norteia e motiva as decisões, segundo o INE a principal razão para a menor penetração da IA nas empresas em Portugal deve-se à falta de conhecimentos e de competências: 74% desconhecimento; 42% falta competências digitais internas e 71% com dificuldades em contratar “expertise”. Deste modo, e embora não seja surpreendente pois talvez isso se relacione com o défice estrutural de qualificações dos empresários portugueses, o problema surge maioritariamente associado ao capital humano e à literacia digital e não de acesso à tecnologia.
Ainda assim, os custos elevados e a incerteza quanto à rentabilidade do investimento em IA também condicionam uma maior penetração da IA na dinâmica empresarial nacional. O fenómeno não é exclusivo do nosso país pois, segundo um estudo da PwC de janeiro último, 56% das empresas consultadas em 95 países não viram qualquer benefício financeiro mensurável da IA nos últimos 12 meses e apenas 12% alcançaram o “jackpot” (maior receita e menores custos simultaneamente).
Apesar do contexto relatado e das muitas dúvidas perante um fenómeno IA que avança rapidamente sem grandes controlos, a verdade é que a IA está a redefinir o posicionamento competitivo das empresas e por isso, optar por ficar para trás poderá ter um custo mais elevado do que investir e ir acompanhando a onda.
Assim, qualquer que seja a aplicação e a profundidade da intervenção da IA nos negócios – segundo a OCDE à data em Portugal a utilização da IA pelas empresas são maioritariamente para análise da linguagem escrita (59%); geração de ficheiros de imagem, vídeo e som (51%) e/ou de linguagem escrita, falada ou códigos de programação (46%) – parece-me que a adoção à nova tecnologia é inevitável e que o foco deverá estar na ajuda da mesma para, por exemplo através de projetos piloto, potenciar a transformação de processos, produtos, competências e, quiçá, modelos de negócio.