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Esta Autonomia caducou?

Era uma vez uma Região que viu nascer a sua Autonomia há cinquenta anos e acreditou, com razão, que estava a abrir um ciclo de afirmação histórica. E abriu. Poucos processos, no quadro da democracia portuguesa, produziram uma transformação tão visível, tão concreta, tão profundamente sentida no quotidiano das pessoas.

Mas convém não dourar o retrato. A Autonomia que celebramos foi também filha do seu tempo - construída entre avanços e concessões, moldada por equilíbrios que, sendo compreensíveis no contexto da época, hoje soam a limitações difíceis de aceitar. Aquilo que ontem foi prudência, hoje aproxima-se perigosamente da resignação.

Vivemos, em 2026, sob um modelo pensado no século passado, ajustado a medo neste século e ainda sujeito a reflexos centralistas que persistem em travar o seu aprofundamento. À luz do presente, há escolhas fundadoras que deixaram de ser um compromisso e passaram a ser um constrangimento.

Cinco décadas depois, devia obrigar-nos a mais do que uma revisão – e abrir caminho a uma verdadeira refundação da Autonomia. Um novo fôlego político que a traga para o tempo presente, que a enraíze ainda mais na realidade de quem aqui vive, de quem aqui trabalha e de quem aqui constrói o futuro - pessoal e coletivo. Uma Autonomia menos tutelada, menos desconfiada de si própria, e mais consciente da sua maturidade.

E, sobretudo, uma Autonomia que reconhece, sem hesitação, o valor das novas gerações. Valor que se vê, que se mede, e que se prova todos os dias. Uma geração mais preparada do que qualquer outra antes dela, com formação, com Mundo, com capacidade de execução e de trabalho - sem caixas para pensar, nem dogmas para servir.

Gerações que cresceram numa Região transformada, percorreram escolas públicas decentes, acederam a mais informação, lidaram mais cedo com a exigência de um Mundo competitivo, e responderam sempre com trabalho. Esse percurso culminou numa geração com ambição, capaz de pensar para lá do imediato e de agir com eficácia.

O debate sobre a Autonomia, na celebração dos seus 50 anos, tem a obrigação, moral e histórica, de olhar para o passado apenas para com ele aprender, e, acima de tudo, fixar-se no futuro para nele garantir o que, até hoje, não se conquistou. A Autonomia vive, também, da sua capacidade de seguir o tempo e de responder com resultados. Quando se afasta dessa exigência, perde relevância e perde, até, utilidade.

É na vida concreta das pessoas que se mede a Autonomia. Na casa que se consegue pagar, no salário que permite ficar, na oportunidade que retém talento, na saúde que responde com dignidade e na educação que abre caminho a cada jovem para alcançar o seu lugar - qualquer que seja a sua origem, a cor da sua pele, a sua convicção religiosa, a família de onde vem ou o saldo da conta bancária dos pais.

O que se pede agora é um salto de maturidade. Uma Autonomia capaz de acompanhar uma geração que já não aceita ficar à espera.

E é por isso que a pergunta deixa de ser confortável: estará esta Autonomia, tal como a herdámos, à altura de quem hoje a tem de viver - ou começará, lentamente, a ficar para trás?