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Mulheres e o 25 de Abril

Comemoramos há pouco o 25 de abril.

Sendo mulher, permitam-me dar conta do que seria a vida de uma mulher antes do 25 de abril. A mulher perfeita seria aquela que, de preferência sem conhecimento de letras e de números, se resignaria ao trabalho do lar, ao cuidado dos filhos que Deus deparasse, sem planeamento familiar, com netos de igual ou superior idade dos filhos, filhos criados, para aos 12 anos seguirem para um ofício que aprenderiam e executariam até ao fim dos seus dias, de almoço na cesta, feito pela madrugada pela mulher submissa, nas brasas do lar, na panela de fero, de lenço à cabeça e avental manchado no colo.

A família que cantava “Arraial, oh lusa gente!” e levava os filhos para a Mocidade Portuguesa para aprenderem a idolatrar o líder, a Pátria.

A família que inexoravelmente, aos domingos, de banho tomado e roupa especial, se dirigiam à missa para mais uma dose de autoritarismo assustador, um Deus que temiam, porque assim o ensinavam. Um Deus que castigava. Um Deus que não amava.

Um Deus, uma Pátria, uma Família completamente enviesados. Uma mentira, uma ilusão, um logro, como são todas as ditaduras.

Por isso, não queiram ressuscitar figuras sinistras do nosso passado coletivo.

Uma mulher, por exemplo, nos anos 60, não podia viajar, trabalhar ou sequer abrir correspondência sem a autorização do marido. Se fossem casadas ou se pretendessem casar, bem podiam esquecer serem enfermeiras ou hospedeiras de bordo.

Votar? Ide, mas é para junto do fogão.

É certo que, ainda hoje, as mulheres têm a vida mais difícil, basta atentar nas redes sociais e nos comentários a elas dirigidos: misoginia e inveja ou misoginia ou inveja, a escolha é livre. Mas, ainda assim, lutando pela liberdade de ser quem somos, sem pedir licença, damos graças a Deus por ser filha de Abril e filha de Novembro, pelas mulheres que estudaram o quiseram, cantaram e escreveram o que quiseram, quer dizer, dentro dos limites do código penal e das boas maneiras, claro está, de terem casado com quem quiseram e as que quiseram terem tidos os filhos que quiseram, de poderem conduzir, de usar sapatos de salto, só porque sim, de usar decotes, sem pedir desculpa, sem achar que qualquer mulher, dentro dos limites do decoro, pode usar o que quiser, sem ser um convite ou uma insinuação.

Não temos um país perfeito, longe disso, continuamos em construção social e cultural. Quando se permite e defende quem tenta justificar, na televisão, em horário nobre, atos de violência sobre as mulheres. Quando se menospreza um ser humano pelo seu género, cor, orientação ou escolhas. O caminho faz-se caminhando. De saltos, se for preciso.

O quinquagésimo segundo aniversário da Revolução dos Cravos coincide com os 50 anos da nossa autonomia e se como mulheres tivemos tempos difíceis durante a ditadura, também, como mulheres ilhéus a dificuldade foi a dobrar.

Que o digam aquelas a quem não foi permitido abandonar a ilha para estudar e tiveram que se contentar com um casamento por resignação ou, em casos mais positivos, com um curso cá ministrado: enfermagem ou magistério primário, da vocação, logo se veria…