O preço do bilhete-postal
No próximo dia 1 de Maio, celebra-se o Dia do Trabalhador. Mas, a 29 de Abril, a antecâmara desta data convida-nos a uma reflexão mais profunda sobre o motor que move a nossa ilha: o Turismo. Não há como negar que a Madeira vive um “momento de ouro”. Batemos recordes de dormidas, os prémios internacionais acumulam-se nas vitrines da Secretaria Regional e o Funchal vibra com uma energia cosmopolita que, há duas décadas, seria impensável. Contudo, entre o brilho dos foguetes e os números do INE, surge a pergunta que ecoa nas mesas de café do Porto Moniz ao Caniçal: a que custo?
O turismo é a nossa maior bênção, mas, sem um planeamento rigoroso, corre o risco de se tornar a sua própria vítima. O fenómeno da “turistificação” não é uma exclusividade madeirense — Veneza, Barcelona e Lisboa já sentiram as dores de crescimento — mas a nossa insularidade torna o desafio mais agudo. Quando falamos de interesse geral, falamos de habitação, de mobilidade e da preservação da nossa identidade.
O maior desafio actual é, sem dúvida, o acesso à habitação. O crescimento exponencial do Alojamento Local (AL) e a procura por parte de nómadas digitais e investidores estrangeiros elevaram os preços para patamares incomportáveis para a classe média e para os jovens madeirenses. É urgente encontrar um ponto de equilíbrio. Não se trata de demonizar o AL, que democratizou os rendimentos do turismo, mas de garantir que os centros das nossas cidades não se transformem em museus de fachadas bonitas, vazios de gente da terra. Uma ilha que não consegue fixar os seus jovens é uma ilha com um prazo de validade curto.
Quem percorre a Via Rápida em horas de ponta ou tenta estacionar no centro do Funchal percebe que a infraestrutura está sob pressão. O aumento do parque automóvel, aliado ao fluxo constante de carros de aluguer, exige uma revolução no transporte público que ainda tarda em ser plena.
Além disso, a nossa maior riqueza é a Natureza. A Laurissilva não é apenas um cenário; é um ecossistema vivo. A saturação de certas levadas e trilhos obriga-nos a repensar o modelo de acesso que ainda não está resolvido. A introdução de taxas para turistas em percursos classificados é um passo corajoso, mas deve ser acompanhado de uma manutenção visível e de uma estratégia que evite a degradação do nosso “ouro verde”. Lembro-me perfeitamente das serras da Madeira quando eu era das poucas pessoas (com meia dúzia de amigos) que por lá andava.
O DN Madeira tem reportado, ao longo dos anos, a resiliência deste povo. Para honrarmos essa história, o foco do futuro próximo tem de ser a qualidade. Precisamos de um turismo que pague melhores salários, que valorize o produto local e que respeite o silêncio e a pacatez que também são activos da Madeira.
A sustentabilidade não é apenas uma palavra de ordem para conferências; é a condição de sobrevivência. Queremos continuar a ser o “Melhor Destino Insular do Mundo”, mas queremos, acima de tudo, que a Madeira continue a ser o melhor lugar do mundo para os madeirenses viverem. O sucesso do turismo só é real se o bem-estar for partilhado por quem cá está os 365 dias do ano.
Neste final de Abril, que as decisões políticas e privadas se alinhem com esta visão: uma ilha aberta ao mundo, sim, mas com os pés bem assentes na terra e o coração posto na sua gente.