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Cada macaco…

Celebrou-se, recentemente, o Dia Mundial da Saúde sob o mote 'Juntos pela Saúde, apoie a ciência'.

Vivemos tempos difíceis, de pouca lucidez e sentido crítico.

É muito fácil atacar o outro ou apropriar-se de funções que não nos competem.

Temos facilidade em reconhecer a usurpação das nossas funções e muita dificuldade em identificar quando o fazemos.

Vamos por partes e olhando para diferentes prismas.

Sou nutricionista, gosto da minha profissão e não tenho pretensões de ser outra coisa ou exceder as minhas competências. Acredito no trabalho de equipa e no benefício para o indivíduo dessa capacidade.

Quando não o fazemos, não estamos a cumprir a nossa missão.

Eu não sou médica, enfermeira, psicóloga, prescritora de atividade física, fisioterapeuta ou qualquer outro profissional.Porque temos tanta dificuldade em cingirmo-nos à nossa profissão?

Porque resvalamos com tanta facilidade na incumbência do outro?

Sentimo-nos empoderados sobre o outro, mas... estaremos a ser profissionais?

Estaremos a zelar pelo cumprimento do código ético?

Acho que não.

Temos tanta agilidade, e bem, em defender e reivindicar a profissão como, por vezes, dificuldade em olhar ao espelho.

Há matérias conexas. A parte operacional, e a habilitação científica que a suporta, não são estanques. Mas todos os profissionais, onde se incluem os de saúde, sabem bem quando estão a exceder as suas competências ou estão em zona interdisciplinar. Quando alguém decide, consciente e reiteradamente, penetrar numa área que não é a sua ou para a qual não está habilitado, não estará, ainda que inconscientemente, a revelar que, na sua opinião, a sua profissão não lhe preenche? Não estará a diminuir aquilo que são as suas competências técnicas? A prestar um mau serviço a si, aos seus pares, à sua área científica e, consequentemente, ao utente?

O problema não se esgota no profissional que executa, mas também no indivíduo que usufrui, que por ignorância, por conivência ou incapacidade de verbalizar, se deixa levar pelo “pague um e leve dois ou três”.

Isto parece de somenos, mas não é: o utilizador dos serviços deve ser exigente no cumprimento de boas práticas do prestador.

Todos temos uma palavra a dizer na qualidade e no garante das boas práticas.

Se me aparecer um físico quântico a prescrever-me um ansiolítico, eu não devo, nem posso, aceitar. E não estão em causa as capacidades intelectuais do físico, certamente um tipo inteligentíssimo. Se um filósofo existencialista me quiser ministrar uma vacina, devo cuidar de saber se tem uma licenciatura em enfermagem, ou não poderei aceitar a inoculação.

Só assim estamos a contribuir para a materialização de um sistema de excelência, em que não nos ultrapassamos ao outro.

Não vale tudo.

O móbil pode ser diverso: monetário, poder, prepotência ou simplesmente mau profissionalismo.

Todos podemos fazer melhor.

Expressamos a importância do trabalho em equipa, dos benefícios para o cidadão, mas tantas vezes, na prática, não executamos essa premissa.

O facto de haver falta de recursos humanos também não serve de desculpa para fazer o do outro. Não passamos a estar habilitados para exercer funções que não são nossas.

Não quero soar a corporativista, ainda mais por estar na direção da Ordem dos Nutricionistas.

Mas esta batalha também tem de continuar a ser esgrimida por um bem comum e um serviço de saúde exemplar.

A saúde é um direito consagrado a que todos devem ter acesso.

Temos profissionais cada vez mais diferenciados e competentes para garantir um serviço de saúde de qualidade.

Nunca tivemos acesso a tanta informação, mas temos de saber separar o trigo do joio, aliar a informação a fontes fidedignas, ou seja, à ciência.

Sejam criteriosos!

Esta rede de intervenientes, desde os decisores políticos, passando pelos profissionais e acabando no cidadão, indica que todos desempenham um papel crucial neste processo.