Esquissos da Turquia
Da minha viagem muito recente a Izmir (Turquia), registo aqui dois momentos cuja singularidade e apelo intrínseco para reflexão me cativaram profundamente.
Chopin vs muezim
No decorrer do concerto dum concurso, protagonizado pelos membros do júri do qual também fiz parte, e tendo eu próprio acabado de tocar, estou sentado na salinha atrás do palco, a ouvir atentamente a interpretação duma sonata para piano de Chopin, pela minha anfitriã. De repente, por uma janela entreaberta dessa salinha, começa a se fazer ouvir uma voz cada vez mais alta, a desenhar o ornato serpenteado, tal e qual um croqui oriental requintado. Eis a voz dum muezim, a entoar do alto de minarete o chamado para a oração. E então, durante uns largos segundos, estou a presenciar uma simultaneidade improvável: os timbres e harmonias da linguagem romântica do mestre polaco de piano, elucidada duma maneira ímpar pela intérprete mundialmente conhecida, dum lado, e a voz pura e fervorosa do cantor, a convocar os fiéis muçulmanos para os momentos dedicados à sua fé.
Como descrever isso, como expressar em palavras a impressão e as emoções que um momento destes cria? Confronto? Contraste? Choque? Guerra dos mundos? Incongruência? Um simples sincronismo ou paralelismo?
Ou então, coexistência? Consciência alargada? Compreensão?
Hoje em dia, quase que podemos dizer que tudo existe em todo o lugar ao mesmo tempo. Ficamos abertos à permeação e à “polinização cruzada” cultural, ou abraçamos a exclusividade e o selo hermético em nome da proteção de uns ou outros valores?
Esse momento fez-me buscar um termo que mais se aproxima àquilo que estive a sentir na altura: a serendipidade. A felicidade de encontrar um momento de cruzamento de culturas e pensamentos que consigo e quero abraçar, pois reforçou a minha convicção e sensação que, tal como o recentemente sublinharam os astronautas a dar a volta à Lua, duma perspetiva abrangente, o mundo é pequeno e é só um e nós todos somos ainda mais pequenos e sempre continuamos a fazer parte deste Um. Para o Bem ou para o mal.
O hodja
O “hodja”, ou “hodza” é um termo de origem turca/persa, usado para se referir a um professor, sábio, mestre ou líder religioso).
Ouvi as pessoas em geral a comunicarem umas com as outras usando este termo, com ou sem o nome. Ao perguntar pelo significado exato desta palavra, disseram-me mesmo que se refere a um professor, sábio ou mestre. Comentei, então, que não é possível que todas as pessoas para quem este termo foi utilizado tenham sido professores ou sábios. Certo, não o são, mas explicaram-me que a maneira de pensar deles é que cada uma pessoa é discente e docente ao mesmo tempo. Quer dizer, não há pessoa da qual não possamos aprender algo, e não há pessoa que não nos possa ensinar algo. Será apenas a questão de humildade para estar aberto a receber seja de quem for, e a questão de sabedoria para perceber quando se está perante uma oportunidade de aprender. E ter a capacidade de abraçar essa oportunidade com toda a abertura e gratidão. Assim visto, a arrogância e egocentrismo são um filtro que não admitem a uma pessoa a oportunidade de se tornar melhor e mais humana.
Conclusão: se todos fossemos um “hodja” nesse referido sentido da palavra, a questão que coloquei em cima, na primeira parte, acabava por ser supérflua e desnecessária. Não sei se esse dia chegará e se se trata duma proposição ingénua, mas a esperança é a última que morre…