DNOTICIAS.PT
Artigos

Uma Semana em cheio

Há iniciativas que se esgotam num simples cartaz. E há outras que começam aí, mas ganham dimensão no que provocam, no que mobilizam, no que deixam e no que perduram. Sou suspeito, mas creio que a Semana da Cultura da Ribeira Brava, que ontem teve o seu início, está claramente no segundo grupo.

Durante nove dias, o Concelho assume-se como palco central. Não apenas de espetáculos, mas de presença, de movimento, de afirmação. Há ritmo, há gente na rua, há procura. Sente-se que algo está a acontecer. Mais de 30 ações, entre concertos, apresentações literárias, teatro e oficinas, desenham um programa consistente, com escala e com capacidade de atrair públicos diferentes, de diferentes faixas etárias. Está longe de ser uma soma de iniciativas soltas. É uma construção com sentido, que cria expetativa, que puxa pelas pessoas, pensada em dar visibilidade ao nosso Município. Não existe para cumprir calendário. Existe para marcar. Para deixar sinal. Para afirmar a Ribeira Brava como um lugar de terra, sonho e tradição onde acontecem eventos com qualidade. E isso faz toda a diferença. O melhor exemplo disso é o “Reviver a Cabotagem”. O que começou como evocação ganhou dimensão própria e tornou-se o verdadeiro expoente da programação. Hoje é um cartaz dentro do cartaz, com capacidade de arrastar centenas de pessoas para a rua e mobilizar mais de 150 participantes num desfile que já não é apenas encenação, é afirmação. É genuíno, é reconhecível, é nosso. É da Ribeira Brava. E isso sente-se na adesão, na forma como as pessoas aguardam, acompanham e ficam. O “Reviver a Cabotagem” deixou de ser um momento para passar a ser uma marca. Um ponto alto que concentra atenção, que dá escala à Semana da Cultura e projeta para fora. Negar seria tão redutor. Mais do que revisitar o passado, consegue dar-lhe presença. Torná-lo visível, vivido, próximo. E, ao fazê-lo, cria um dos raros momentos em que tradição e contemporaneidade não competem, reforçam-se. Porque junta participação e todos os valores que defendemos. E porque prova, sem necessidade de discurso, que quando há qualidade e autenticidade, as pessoas não falham. Depois há a presença de nomes nacionais, que ajudam a dar outra escala ao evento. António Raminhos e Luís Filipe Borges, os Anjos, uma escritora como Sofia Castro Fernandes. Não foi pensado ao acaso, é posicionamento de uma estratégia que se consolida. É dizer que a Ribeira Brava não se fecha sobre si própria. Abre-se, cruza, eleva o nível. E, ao mesmo tempo, há a força de quem cá está todos os dias. Os grupos, os artistas, os artesãos, os que mantêm viva uma herança que não cabe em discursos. Este ano, com demonstrações ao vivo, essa dimensão ganha ainda mais visibilidade. Não como ornamento, mas como parte central. A apresentação da história e vida do Pe. Manuel Álvares, integrada no congresso internacional dos 500 anos do seu nascimento, vem reforçar essa leitura. Há aqui mais do que programação. Há intenção. Há continuidade. Há ambição de deixar marca para lá destes nove dias. Convém dizer, por fim, sem rodeios, que toda esta agenda não é uma despesa, como alguém possa querer adulterar. É uma escolha estratégica porque a cultura, quando é levada a sério, não pesa. Projecta. Dá visibilidade. Gera movimento. E tal como alguém dantes escreveu: “A cultura é a inteligência do mundo”. É essa a nossa aposta. Uma afirmação de quem percebe que um Concelho que cria, que arrisca e que chama pessoas não fica na periferia de nada.