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Crónicas

Carta do João ao Presidente sobre o estado a que isto chegou

1. Decidi abrir esta página que o DN faz a amabilidade de me disponibilizar para que outros, que moram cá dentro, se possam manifestar. Hoje deixo as honras da casa ao João da Maria José, conhecido pelo “O Estroina”.

2. Sr. Presidente
É-me mainada se lê ou não esta carta. Não a escrevo para o convencer, porque há criaturas que já não ouvem, ou fingem-se moucas por conveniência, e o senhor, há muito, escolheu esse cómodo ofício de moquenco do poder. Escrevo por decência, por obrigação de consciência, por deixar anotado, antes que o nevoeiro oficial volte a forrar tudo com ferruge, como foi que esta terra chegou a semelhante fundega moral, a esta adufa política, a este lamaçal de mandingas, falaços e fusis onde a Madeira, que sempre foi pobre, mas tinha vergonha, se deixou atolar sob a sua fumaça, a sua gabança e a sua antiga e nunca curada posporrência.

Comecemos pelo que se vê e que até um cego cansado abisparia ao longe. O senhor é hoje o principal factor de instabilidade da Região. Não o único, está bem, que aldrabões, fanecas e pacholas nunca faltaram por estas bandas, e há sempre um ou outro charoleiro pronto a ajudar na chafurdice, mas o senhor é o mais duradouro, o mais emboseirado no aparelho, o mais agarrado ao mando como uma lapa à rocha. Está no poder há tanto tempo que já não distingue a cadeira do trono, a governação da corte, a autonomia da sua pessoa. Tornou-se uma espécie de reizinho de fajã, uma figura entre o graúdo e o carepa, cercado de casacas, de galrapas de lapela engomada, de doutores de cerimónia, de gente que entra muda e sai de rastos, todos muito lestos a fazer vénias e a compor o charamba do costume, como se governar fosse isto: um balancé de compadrios com banda sonora de aplausos comprados, como no Congresso de ontem do seu partido.

Durante anos vendeu a mercadoria da estabilidade. E o que nos deu foi outra cousa, bem mais feia e bem mais pegajosa. Deu-nos uma paz de choco, uma quietação de curral, uma ordem de palheiro abafado, sustentada não pela confiança dos livres, mas pelo silêncio dos dependentes. Porque um regime não se mede pelo que anuncia, nem pelos fogos de arraial, nem pelos fachos de ocasião, nem pelas inaugurações feitas à pressa para a fotografia da noite. Mede-se pelo que cala, por quem apergana, por quem aqueta, por quem encafuou no medo. E nisso o senhor especializou-se com perícia de levadeiro do favor. Não censura às claras, que isso seria grosseiro e até pouco moderno. Faz pior e mais fino. Distribui benesses, promete empregos, fia influências, atira um telefonema ao fim da tarde, dá um convite aqui, uma avença acolá, um jeitinho mais além, e com isso vai amurando a ilha inteira, poio a poio, freguesia a freguesia, até fazer do poder uma colónia de obediências.

Aí está, aliás, o segredo dos seus triunfos plebiscitários, que alguns tolos ainda confundem com amor popular, quando não passam de administração minuciosa da necessidade. A teia é fina, mas segura. Cada voto deixa de ser escolha para passar a ser cautela. Cada eleitor aprende, cedo e sem precisar de muita filosofia, que a liberdade é muito bonita nos discursos, mas não paga a renda, não mete conduto na mesa, não livra ninguém do susto de ficar sem o ganha-pão. E então cala-se, engole, afiúza-se no protector, apara a mão para receber o que vier, e vai andando. Uns recebem cargo, outros subsídio, outros publicidade, outros o simples sossego de não serem arreliados. O empresário precisa da mão pública. A câmara precisa do aval. O clube precisa do cheque. A associação precisa da assinatura. E o cidadão comum, que sua a camisa e leva malhas da vida, precisa ao menos que não lhe levantem mais uma ameixa em cima da já larga cangalha que carrega às costas.

É assim que o sistema se reproduz, não pela grandeza, não pelo entusiasmo, não por qualquer ideia digna desse nome, mas pelo medo e pela fome. Pela fome de rabo, às vezes literal. Pela fraima de perder o pouco que se tem. Pela velha lição, repetida com arreio, de que quem não se ajoelha acaba fora do prato. É a estabilidade dos rebanhos, sim, mas também a estabilidade dos apusegados, dos encurralados, dos que já nem cramam alto porque aprenderam que a ilha escuta e toma nota. Nada se move porque todos têm alguma cousa a perder. E o senhor, que não nasceu ontem, sabe isto melhor do que ninguém. Sabe como se fabrica uma maioria absoluta sem crença e sem alegria. Basta manter a engrenagem oleada, o povo dependente, os fusis a circular, a propaganda a brunir, o medo a fazer o resto.

Só que já não está.

As fendas já não se escondem com um bocado de tinta, um presépio subsidiado, um espiche triunfalista, um cortejo censurado, uma notícia amiga ou um falaço de ocasião. Há mau cheiro no ar, e não é preciso ter grande nariz para sentir o fládio. Há perguntas que a charlatanice oficial já não consegue tapar. Há processos, há suspeitas, há notícias, há escutas, há buscas, há nomes repetidos e até os mais distraídos já começaram a atremar o que se passa. E há, sobretudo, uma geração nova que já não quer viver de aparar a mão, que já não aceita ser educada como canalha obediente, que já não acha normal esta mistura de autonomia e quintal, de governo e capoeira, de partido e casa senhorial. Gente que quer sair da Madeira não por ambição, como tanta vez aconteceu, mas por náusea, por cansaço, por não suportar mais esta atmosfera abafada de braguilha moral onde tudo parece ter dono, preço e senha de entrada.

E há uma pergunta, meu caro Presidente, daquelas que não se resolvem com bravatas nem com mais uma pose de chiquemane para as câmaras. Que garantia pode dar Vossa Excelência, se ainda faz sentido usar a fórmula sem nos rirmos todos, de que os processos judiciais que impendem sobre si e sobre os seus não terão consequências no futuro próximo? Que sossego pode ter um povo governado por quem vive com a espada da incerteza pendurada sobre a própria cachimónia? Que espécie de estabilidade é esta em que o chefe do governo paira permanentemente entre a pose e a queda, entre o despacho e o sobressalto, entre o discurso e o aquê-del-rei? Nenhuma. Porque enquanto essa sombra ali estiver, enquanto a vida pública da Região continuar suspensa da sorte processual de um homem e da cangalha dos que o rodeiam, tudo estará por definição em suspenso. E um povo não pode viver a prazo, à espera do próximo rebentão.

O senhor tornou-se o principal travão ao futuro da Madeira. Não porque lhe faltem palavras, que falastrão nunca foi defeito raro na política, nem sequer porque lhe tivessem faltado, noutros tempos, algumas ideias. Tornou-se travão porque deixou de pensar a política como transformação e passou a usá-la como conservação. Já não governa para abrir. Governa para segurar. Segurar o lugar, os seus, a rede, a máquina, os medos, os pequenos equilíbrios, a arquitectura das conveniências. A política, nas suas mãos, deixou de ser caminho e passou a ser muro. Um muro alto, basáltico, húmido, com poucas janelas e muita gente agarrada por dentro a não deixar entrar ar.

Não é sequer o corrupto clássico, de romance antigo e bolso cheio, que ao menos tinha a franqueza quase animal da sua miséria. É uma cousa pior, mais moderna, mais sonsa, mais pegada ao regime. É o produto perfeito da democracia sem alternância, da autonomia sem verdadeira responsabilização, da oposição domesticada, da opinião transformada em clientela. O senhor já não é apenas um homem no poder. É o hábito do poder. É a ferrugem do mecanismo. É a boseira acumulada nas rodas da nossa vida pública. Tornou-se necessário à própria decadência do sistema, como se a podridão precisasse de um rosto para continuar a parecer governável. E sabe-o. Por isso se agarra, por isso se defende, por isso fanfarra, por isso se mexe tanto quando sente o chão a fugir-lhe debaixo dos pés.

Pois eu, que não lhe devo favor, cheque, emprego, convite, dentinho, conduto, nem sombra de protecção, digo-lho sem rodeios e sem aquela prudência de quem ainda espera alguma migalha do banquete: vá-se embora. Saia. Dê de frosques da cena pública com a pouca dignidade que ainda consiga ajetivar no meio deste estrampalho. Abra espaço a quem, ao menos, não tenha a alma já tomada por esta lógica de quinta, por esta mandinga de favor e obediência, por este vício de confundir a Madeira consigo próprio.

Porque, meu caro, o senhor já não representa ninguém que não viva da engrenagem. Representa apenas o vazio. O vazio de um poder que se perpetua por inércia, de um regime que já não convence mas ainda aperganha, de uma terra que continua bela como poucas e governada como se fosse propriedade de uns quantos. E talvez seja isto o mais triste, percebe? Numa ilha onde o mar devia ensinar humildade, o senhor escolheu a fumaça. Numa terra onde a levada devia lembrar que a água corre para todos, o senhor preferiu a adufa estreita do controlo. Numa Região que precisava de futuro, deixou-nos um presente embargado, pesado, apusegado, com medo de si próprio.

Com o desprezo justo,
João da Maria José, conhecido pelo “Estroina”.
Um madeirense que não pede licença para o ser.