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Crónicas

O bom, o mau e o passarinho

Corria o longínquo ano de 2016. Paulo Cafôfo e a prometida primavera da cidadania no Funchal mostravam os primeiros sinais de deslumbramento. O primeiro presidente socialista da Câmara do Funchal, tão magnânimo como interesseiro, lançou a hipótese do município editar um livro de Alberto João Jardim. Os esgares de horror da trupe partidária que fez Cafôfo presidente, não se fizeram esperar. Entretanto, o livro nunca se lançou, Alberto João ficou-se a rir e a popularidade de Cafôfo eclipsou-se. Dez anos depois, o JPP convidou Jardim para uma conferência sobre o futuro da autonomia. Pelos vistos, em política, há lições que levam mais de uma década a aprender. Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.

O bom: A Autonomia na Imprensa de 1976

A nossa autonomia não nasceu, apenas, nos corredores da Assembleia Constituinte ou nos gabinetes de quem negociou o nosso estatuto. Nasceu e cresceu também nas páginas e nas capas dos jornais. No Jornal da Madeira, no Diário da Madeira e neste Diário de Notícias, que documentaram, noticiaram e, muitas vezes, empurraram o processo quando ele ameaçava parar. Não apenas como testemunhas do fenómeno autonómico, mas, muitas vezes, a sua consciência. A imprensa regional e a autonomia andaram, desde o início, de mãos dadas. Não é uma metáfora, é história. É essa história que o Museu da Imprensa da Madeira nos relembra, através da exposição “A Autonomia na Imprensa de 1976”, com a curadoria de Lourenço Freitas. Merece nota, também, o Município de Câmara de Lobos que percebeu que a identidade de um concelho não se constrói só com eventos de verão. Ao todo são cinquenta notícias para cinquenta anos, retiradas dos jornais originais de 1976, a que se junta a coleção completa do Diário da Assembleia Constituinte. A entrada é gratuita e a visita a Câmara de Lobos obrigatória.

O mau: Dia da Autonomia

Continua um mistério sem resposta. O que é que se comemora a 2 de Abril (dia da Autonomia) que não se possa comemorar a 1 de Julho (dia da Região)? Nada ou muito pouco, se tivermos em conta a ausência de qualquer cerimónia pública que assinalasse o feriado deste ano. O jejum autonómico, praticado a 2 de Abril, para além de não merecer perdão pascal, tem praticantes em todos os quadrantes políticos. Uns com mais responsabilidade do que outros, é certo. Mas todos, especialmente aqueles que mais tarde se quiseram aproveitar da carestia, ficam mal na fotografia dos 50 anos da autonomia da Madeira. Não que esteja tudo mal na celebração da meia-idade autonómica. Pelo contrário. A Assembleia Legislativa tem organizado iniciativas relevantes como “O Parlamento vai à Escola”, o projeto “Parlamento na Comunidade” ou, o mais recente, “Rostos da Autonomia” em parceria com este Diário. As “Conferências da Autonomia”, iniciativa da organização oficial das comemorações, têm sido palco de debates interessantes sobre o futuro das regiões autónomas. Falta, todavia, um rumo. Um fio condutor que amarre as iniciativas a uma ideia comum e que transforme a celebração dispersa num argumento coerente sobre o que foi, o que é e o que se quer que seja a autonomia. Cinquenta anos exigem mais do que um programa de eventos. Cinquenta anos é tempo suficiente para justificar uma narrativa. E as narrativas não se improvisam, não se entregam a comissões e não resultam da soma de boas intenções. Cinco décadas exigem uma escolha sobre o que a Madeira quer dizer sobre si própria quando tem o resto do país atento. Foi isso que faltou no feriado de 2 de Abril.

O pavão: Paulo Cafôfo

Maravilhem-se. O antigo presidente de partido. Uma das espécies mais curiosas da política portuguesa. Surge, repetidamente, no seu habitat natural: a última fila de uma bancada parlamentar ou como estrela de uma rubrica televisiva criada à sua medida. No primeiro caso, ostenta o olhar seráfico de quem percebeu que o poder é passageiro. No segundo, exercita, com notável entusiasmo, a convicção política que não encontrou nos anos de liderança. Existe, no entanto, uma subespécie regional do ex-líder partidário que, porventura beneficiando do nosso clima tropical, evoluiu em sentido contrário. Por cá, Paulo Cafôfo, antigo presidente do PS Madeira, não recolheu ao recato da última fila parlamentar, nem encontrou refúgio numa rubrica televisiva de horário nobre. O espécime madeirense, ao invés, floresceu. Tornou-se mais visível e mais exuberante. Abriu a cauda com a solenidade de um pavão. Do ponto de vista político, o resultado é fascinante. Em vez de recuar, Cafôfo, avançou. Galgou para a primeira fila do Parlamento, é avistado com frequência no debate parlamentar da RTP Madeira e até arriscou uma migração continental para discursar no Congresso Nacional do PS. A hipótese mais consensual para o fenómeno evolutivo é ecológica: o espécime regional prospera na sombra do sucessor. E é aqui que a observação se torna interessante. O renovado fulgor de Cafôfo tem uma vítima silenciosa - Célia Pecegueiro. A atual presidente do PS Madeira, para além de não liderar a oposição, lidera o partido nos intervalos da exuberância do seu antecessor. A coexistência de presidentes, a prazo, tem perigosas consequências eleitorais. Um partido que não sabe quem manda, não convence o eleitor de que sabe o que quer.