Todos diferentes e iguais em quê? Em Quem?

Este tempo de guerras, mortes e da Paixão e morte de Jesus Cristo, convida a buscar sentido de vida. As diferenças das pessoas dominam mais que a igualdade: uma escreve uma linha; outra, uma página. Esta, nada. Aquela diz uma palavra, esta explica em longa conversa o que outra diria em dez segundos e outra fala até cansar quem a ouve. Todas diferentes em mil outras maneiras de ser e fazer. As ciências não as conseguem esgotar todas, nem as conversas de tertúlia, opiniões de comadres, opiniões de multidão. O homem, o cientista, o místico, o espiritual precisariam de ser dotados de uma inteligência divina. E para entender a igual dignidade das pessoas e a sua semelhança com o Criador, como a Bíblia se exprime, seria ainda mais difícil e indizível. Um santo da hospitalidade cristã atreveu-se a dizer que uma pessoa (ele dizia uma alma) vale mais que todos os tesouros do mundo (Bento Menni).

Há séculos, a Revolução Francesa clamou o refrão da “igualdade”: “todos iguais”. Iguais nisto e naquilo, mas ficou pouco claro, na teoria e na prática, e não evitou as injustiças de começar a guilhotinar cabeças. As diferenças gritaram mais alto, as aparências dão mais nas vistas. E alguns filósofos afirmam, de variadíssimos modos, que para tratar bem as pessoas, os doentes, os alunos, os cidadãos de um país todas as diferenças devem ser postas entre parênteses, escondidas, como se não existissem, e olhar cada pessoa e vê-la igual a todas as outras, igual a mim. Igual em quê? Mas não fica claro o que cada um quer dizer quando diz igual, nem o que significa a igualdade dos cidadãos e muito menos porquê muitas pessoas não são consideradas cidadãos em nenhum país.

Cada pessoa de mediana inteligência poderá tentar reconhecer que cada pessoa é uma entidade, um ser simultaneamente corpo (soma) e espírito (sopro/pneuma) unidos a funcionar, a existir e exprimir-se como corpo (material) e espírito (não material). Quando, porém, se pedisse para dizer essa maravilha cientificamente e racionalmente tenderiam a falar para cá dos limites materiais, da animalidade sem conseguir estender-se ao espiritual sem limites.

A Bíblia no Antigo Testamento vem em socorro desta incapacidade quando narra que são iguais porque à imagem e semelhança do Criador que lhe soprou o pneuma (espírito).O Evangelho e a Igreja dizem que as pessoas são todas iguais na dignidade (a que o Papa Francisco chamou «dignidade infinita» desde a conceção à morte e para além da morte. A Igreja, desde há vinte séculos ensina que os batizados são todos eminentemente filhos de Deus e recebem uma dignidade divinizante que não anula, mas sublima a igual dignidade de pessoas criadas por Deus.

Muitos afirmam que as pessoas são iguais na espiritualidade e até muitos organismos e instituições também o dizem quando discorrem sobre o conceito de saúde que alguns cidadãos, deste ou daquele país, e que só são bem cuidados se os cuidadores deles respeitarem que esta espiritualidade (dignidade) torna iguais os doentes, sejam quais forem as suas diferenças. E serão tratadas de igual modo, por todas as ciências e todas as opiniões, e à base de todas as experiências de vida de todas as pessoas? Quem dera! Infelizmente não faltam pensares, de ciência, de filosofia, ideologia e opiniões mal verificadas e erradas, por ignorância e atrevimento, que as comparam a animais, a coisas e a objetos de abuso.

As ciências, duras e moles, estudam as diferenças das pessoas para melhor as conhecerem e cuidarem. E têm razão nesse esmiuçar em mini análises as diferenças de funcionamento. Descobrem que são diferentes no seu corpo, sistemas orgânicos e capacidades. Continuam iguais, mas não para todas as escolas, serviços, empregos, funções, em todos os países, etc. Estas e outras diferenças levam alguns a negar a igualdade, a dignidade; e a considerar algumas mais dignas, como Lévinas, ou “mais iguais”, como na “república dos porcos”. Alguns pensadores e filósofos colocam outras abaixo de animais ou eliminam-nas, como Hitler e os promotores dos Gulags, Holodomors e outros genocídios. E já antes Darwin e Nietzsche, mantiveram posições de eugenia de não as deixarem viver, como há hoje correntes semelhantes. A Semana Santa cristã, naturalmente, ou antes, espiritualmente falando (divinalmente) une as diferenças e a dignidade das pessoas em Jesus Cristo Deus-Homem encarnado que disse: Eu “estava doente e visitaste-Me (Mt.25.36”; “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós os deveis lavar uns aos outros” (Jo. 13,12-15) como iguais e semelhantes a Mim.

Aires Gameiro