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Crónicas

À minha primeira guru

O que escolhemos ver transforma tudo

Aminha filha mais velha fez, no dia 21, 19 anos. E, como em todos os aniversários dela, volto sempre ao mesmo lugar. Àquele instante em que os meus olhos cruzaram os dela pela primeira vez e senti um amor maior do que o corpo. Um amor que, ainda hoje, não sei explicar. Apenas reconheço, porque nunca mais senti nada igual.

Crescemos juntas. No tempo, no amor, no mundo. E eu, que vivo das palavras, fui percebendo que há histórias que não se contam de fora. Vivem-se por dentro. Em camadas. Em silêncios. Em aprendizagens que não cabem no que sabemos dizer.

Há uma parte desta história que não se vê nas fotografias. Não cabe nos aniversários, nem no léxico comum. E o mundo ainda não aprendeu a lê-la.

Há olhares que se detêm no que falta. No que não corresponde. No que sai do molde. E, nesse instante, deixam de ver uma pessoa inteira para ver apenas a diferença. É aí que começa a verdadeira exclusão. Não a que se mede em quilómetros, mas a que se abre entre quem somos e aquilo que escolhemos ver no outro.

Há uma pressa em rotular, em antecipar limites. Como se fosse mais confortável reduzir alguém ao que não é do que esperar para descobrir tudo o que pode vir a ser.

E, nesse processo, perdemos tempo. Perdemos encontro. Perdemos humanidade. Porque o mais difícil não é acompanhar quem precisa de mais tempo.

O mais difícil é desaprender a olhar.

É suportar o desconforto de não saber.

É ficar, mesmo quando não entendemos tudo.

Aprendo isso todos os dias.

Aprendo que a intenção é uma bússola. Que a direção conta mais do que o destino. Aprendo a ver para além do imediato.

Aprendo a escutar o que não é dito da forma habitual.

Aprendo que há inteligências que não cabem em padrões. Que as expectativas são inimigas das relações.

E aprendo que o amor não corrige. Conecta. Guia.

Aprendo também que não és minha. Que nasceu de mim, mas não me pertence. Que não vim par a ensinar a ser quem eu imaginava, mas aprender, com ela, quem sou. Estes 19 anos ensinaram-me que a vida não se mede pela velocidade nem pela forma como encaixamos, mas pela capacidade de permanecermos uns com e para os outros, mesmo quando é desafiante.

A minha filha ensinou-me a ver o que é mais importante a cada momento, a conectar antes de corrigir.

Ensinou-me que amor, gera amor. Gentileza gera gentileza. Que não é sobre perfeição. É sobre conexão. E isso tornou-me mais humana.

Talvez seja isso que ainda falta aprender colectivamente. Olhar sem reduzir. Acolher sem julgamento. Incluir como quem reconhece no outro a mesma dignidade que exige para si. Porque a verdadeira inclusão não acontece quando deixamos entrar. Acontece quando deixamos de excluir. E isso não começa nas leis. Começa no olhar. Na qualidade do tempo. Na forma como escolhemos ver e escutar.

Todos os dias.

A ti, meu amor, prometo continuar a nutrir a nossa cumplicidade ímpar e caminhar ao teu lado. A ser o teu lugar seguro, mesmo quando o mundo não o for.

Não vou ser perfeita. Haverá momentos em que não vou saber decidir facilmente, em que não terei todos os recursos disponíveis para te proteger como gostaria, em que não vou encontrar a melhor resposta no tempo certo, em que vou ter dificuldade para estar consciente das tuas e das minhas necessidades. E isso dói.

Porque, se pudesse, colocava-me entre ti e tudo o que dói. Mas não posso, meu anjo.

A vida vai trazer-te desafios, dúvidas, momentos em que vais querer desistir. E o meu lugar não é impedir isso. É ficar. É lembrar-te de quem és, mesmo quando te fizerem duvidar. É confiar em ti, mesmo quando tudo parecer incerto, mesmo quando o teu caminho não for aquele que algum dia eu pudesse imaginar. E caminhar ao teu lado. Não para evitar a dor, mas para que nunca a atravesses sozinha.

Quero que haja espaço para tudo. Para os dias leves e para os difíceis.

Quero deixar-te sentir. Sem te apressar. Sem te salvar. Estando contigo enquanto sentes.

Nos dias de incerteza, há algo que é intocável: o nosso amor.

E, se um dia encontrares amor noutros lugares, quero que saibas que fico em paz com isso. O amor não divide. Expande.

Ser mãe não é ocupar um lugar. É estar presente.

Continuamos a aprender que incluir não é abrir a porta. É não a fechar.

Que ver não é olhar. É reconhecer.

E que amar não é proteger de tudo. É permanecer.

No meio de tudo, não nos esqueçamos de viver. Mesmo quando o mundo não vir. Eu vou continuar a ver-te.

Sempre.

Mais logo, volto a ler-te estas palavras.

Meu amor.