É possível ser simples, acessível e eficaz
A evolução do Subsídio Social de Mobilidade (SSM) para os residentes das regiões autónomas volta a colocar no centro do debate a velha tensão entre intenção política, execução técnica e impacto real na vida dos cidadãos. O anúncio de que os madeirenses deixarão de adiantar “um único euro” nas viagens aéreas representa, à partida, um avanço estrutural significativo, corrigindo uma distorção que, durante estes anos, penalizou as famílias insulares, tornando-as portuguesas de segunda. Contudo, a leitura do processo recente revela um percurso marcado por avanços titubeantes, mas também por recuos e fragilidades operacionais que não podem ser ignorados.
Desde logo, importa reconhecer que a promessa de eliminar o adiantamento constitui uma reivindicação antiga da Região. Trata-se de uma questão de equidade territorial: exigir que um residente insular suporte antecipadamente custos elevados para depois ser reembolsado pelo Estado sempre configurou uma desigualdade evidente face aos cidadãos do continente. Nesse sentido, a solução agora anunciada pelo ministro das Infraestruturas alinha-se com o princípio da continuidade territorial e responde a uma necessidade concreta, há muito identificada.
Todavia, o caminho até aqui expôs limitações sérias no modelo adoptado, com muito ruído político dispensável. A introdução da nova plataforma digital de reembolsos, apesar de representar um esforço de modernização administrativa, revelou-se, na prática, excessivamente burocrática e pouco intuitiva. Um calvário. O próprio ministro Pinto Luz reconheceu que “nem tudo foi perfeito”, enquanto o presidente do Governo Regional admitiu dificuldades na sua utilização, sublinhando que o sistema não é simples nem sequer para utilizadores experientes. Este reconhecimento político é relevante, mas evidencia uma falha essencial: a digitalização, quando mal implementada, pode agravar desigualdades em vez de as reduzir. A exigência, entretanto, eliminada, de submissão de comprovativos de pagamento ilustra bem esse excesso de burocracia. Longe de simplificar, a plataforma acabou por criar “entropia”, gerando atrasos, frustração e até mobilização cívica sob a forma de petições. Este recuo, a eliminação dessa obrigatoriedade, constitui um sinal positivo de ajustamento, mas também confirma que o modelo inicial foi desenhado sem plena adequação à realidade dos utilizadores.
Apesar destas dificuldades, os dados de adesão revelam um sistema com potencial: cerca de 30 mil inscritos e 1,4 milhões de euros reembolsados em aproximadamente 5 mil viagens. Simplifiquem-no e não compliquem.
Subsistem, contudo, incertezas quanto ao modelo final que permitirá eliminar os adiantamentos. O próprio primeiro-ministro admitiu a complexidade técnica e negocial do processo, especialmente na articulação com as companhias aéreas. Esta indefinição levanta dúvidas sobre a sustentabilidade e eficácia da solução a médio prazo.
Em síntese, o SSM encontra-se numa fase de transição crítica. Há avanços inegáveis, desde a simplificação de procedimentos até à promessa de eliminar o adiantamento, mas também há sinais de fragilidade num sistema que ainda procura estabilidade. Para a Madeira, mais do que anúncios, o essencial será garantir que a solução final seja simples, acessível e eficaz. A mobilidade não é apenas uma questão técnica ou financeira: é um direito fundamental que condiciona a coesão territorial e a igualdade entre portugueses. Era bom que o governo da República admitisse de vez essa premissa.
2. A instabilidade vivida no Médio Oriente tem vindo a reflectir-se na subida do preço do petróleo, com impacto directo nos combustíveis, nos transportes e, em cadeia, no custo dos bens essenciais. O resultado é um agravamento do custo de vida, particularmente sentido pelas famílias com o dinheiro contado, já pressionadas pela habitação e pela factura alimentar. Situações excepcionais exigem respostas firmes e também excepcionais. O Governo Regional ainda dispõe de margem para actuar, seja pela via fiscal, seja através de apoios extraordinários dirigidos. Não basta mexer apenas no ISP, nem vigiar a evolução dos preços: é indispensável adoptar medidas concretas e imediatas que mitiguem os efeitos desta escalada e protejam quem está mais exposto.