Evidências
O problema é que nestes últimos 6 anos, os preços não pararam de subir numa proporção desigual aos ordenados
O atual cenário internacional de guerra está a colocar sobre alerta vários governos. Pensar que este conflito é um assunto distante e que nada nos afetará é ingenuidade.
Internamente, existem já consequências com os avisos de aumentos de preços, não só nos combustíveis, mas também nos produtos alimentícios, o que inevitavelmente trará nova perda de poder de compra para todos nós.
O problema é que nestes últimos 6 anos, os preços não pararam de subir numa proporção desigual aos ordenados. Tivemos a pandemia da COVID-19, a guerra na Ucrânia, a crise na habitação com escalada de preços nas rendas e nos valores dos imóveis e agora temos de sobreviver aos efeitos desta nova guerra no médio oriente.
Justificam-se sempre os aumentos de preços por “causa do efeito dos acontecimentos mundiais”. Todavia, paradoxalmente os lucros da rede de supermercados Continente e Pingo Doce situam-se sempre ao nível dos milhões de euros. A Sonae, empresa que detém os supermercados Continente registou, no ano passado, um lucro de 247 milhões de euros e a Jerónimo Martins, dona dos Supermercados Pingo Doce, registou um lucro de 646 milhões de euros.
As empresas existem para terem lucro, mas estes volumes de lucros acabam por ser ofensivos. Poderiam continuar a ter lucro sem colocarem os preços aos níveis que estão. Ninguém passa sem comer. Não abusem. Não brinquem com o desespero das pessoas.
O Governo nacional deveria estudar novas formas de atuação por parte da Autoridade da Concorrência e melhorar a sua política de regulação de preços dos bens essenciais. A livre concorrência e a existência de uma economia de mercado desejável para o desenvolvimento económico de um país não podem ser à vontadinha. É preciso agir sob pena de paulatinamente aumentar a pobreza. Se não atuam com melhor regulação, terão de aumentar ordenados. Porque assim não dá.
Por cá, os preços das casas não param de subir e a habitação passou a ser um luxo. Apartamentos construídos com material de luxo que empolam os preços das habitações não são o que precisamos. Preços milionários em alguns imóveis empolam os preços de outros imóveis que não valem o que pedem. Pela análise que faço do mercado imobiliário, existem indícios que já estamos a viver na nossa Região o fenómeno designado “bolha imobiliária” que qualquer dia rebenta. Não sei quando. Mas que vai ocorrer, lá isso vai. Muitos estão a ser arrastados para situações financeiras pessoais de alto risco, incapazes de fazer face a qualquer despesa extra, por exemplo, numa situação de doença. E com o cenário internacional atual haverá consequências no sector financeiro e nas taxas de juro de empréstimos.
Toda esta situação deveria fazer-nos pensar no futuro da nossa Região. Ninguém consegue prever como vai evoluir a guerra no médio oriente e existe uma contenção grande por parte da União Europeia para que a mesma não se torne uma guerra mundial. Mas, qual o impacto de uma escalada da guerra na nossa região? Alguém já pensou nisto?
Independentemente deste cenário internacional, o próximo ano para a Região estava já fadado de grande dificuldade financeira. Atendendo às intempéries que ocorreram no continente, o Governo da República não tem margem de manobra para aumentar transferências orçamentais para as Regiões Autónomas. Por lá, é preciso reconstruir muitas infraestruturas e realmente foi uma grande calamidade o que por lá se passou.
Insisto o que digo há anos - Pensar no futuro desenvolvimento económico regional é uma prioridade. Ainda que haja uma atividade central que no nosso caso é o turismo, não podemos esquecer as outras atividades económicas. Diversificar. Tornar-nos um pouco mais autossuficientes. À microescala.
A atividade do turismo é muito volátil e altamente dependente das condicionantes internacionais. Se houver quebra de fluxo turístico, vamos viver do quê? Se no país de origem dos nossos turistas houver também o aumento de custo de vida, virão de viagem? O que se aprendeu nos últimos 6 anos? Não é evidente que precisamos de ter apostas noutras atividades económicas e que devemos diversificar a nossa economia?
Ainda não perceberam que uma economia saudável é a que está em equilíbrio? Não se mede o sucesso económico da Madeira com Parques Industriais.
Não é compreensível a prioridade do governo em criar um campo de golfe em Santana. Uma zona cujas terras são altamente produtivas em termos agrícolas. Não seria mais inteligente desenvolver um plano de produtividade agrícola dos nossos solos num desenvolvimento integrado do território? Preserve-se o que se tem de bom.
A quem servirá o novo campo de golfe? Apenas a alguns. E como ficam todos os outros? Justifica-se o investimento de milhões do governo regional quando existem tantas outras necessidades? O mesmo se pode dizer do teleférico do Curral das Freiras e da estrada das Ginjas. Existem despesas mais prioritárias do que estas.
É necessário recentrar as prioridades e as opções governativas devem ter em atenção os interesses dos madeirenses e as suas necessidades. De todos em geral e não apenas de alguns.