Petróleo, guerra e o eco dos anos 70
A verdade é que a leitura do dividendo da paz sempre foi uma visão demasiado otimista
O conceito de dividendo da paz surgiu com Bush Sr. e Margaret Thatcher e descreve a ideia de que, com a estabilização geopolítica após a Guerra Fria, as verbas até então dedicadas às forças militares poderiam, parcialmente, ser transferidas para investimentos em saúde, educação e habitação.
Na década seguinte à queda da União Soviética, a despesa em defesa caiu pronunciadamente, em particular na Europa, com uma transferência parcial das verbas para investimento em infraestruturas, saúde e políticas sociais.
A nível global, houve um forte crescimento do comércio internacional, impulsionado pela expansão da União Europeia e da zona euro, a entrada da China na Organização Mundial do Comércio e por acordos que reduziram tarifas e simplificaram o comércio. Esta dinâmica foi sustentada pela redução do risco político e militar, que criou a confiança necessária para investir em cadeias globais de abastecimento, promovendo fluxos de capital e tecnologia entre países anteriormente rivais.
A verdade é que a leitura do dividendo da paz sempre foi uma visão demasiado otimista e esteve sujeita a diversos testes sucessivos com a guerra nos Balcãs, no Golfo ou no 11 de Setembro e nas guerras que se lhe sucederam. No entanto, os anos recentes têm sido uma realidade pior do que os cenários de alguns pessimistas.
O último desenvolvimento foi a guerra entre os EUA e Israel e o Irão. Deixando para outros a análise bélica, uma das consequências mais imediatas deste confronto foi o encerramento quase total, até agora, do tráfego marítimo via o estreito de Hormuz.
A Agência Internacional de Energia já veio classificar a disrupção do estreito de Hormuz como uma das mais amplas nas cadeias globais. As estimativas para a perda de produção variam entre os 8 e os 15 milhões de barris por dia, numa produção global estimada em cerca de 100 milhões. Caso a área de confronto se expanda para as zonas circundantes, poderemos estar a falar de cerca de 20% da produção global petrolífera interrompida ou fortemente afetada.
Esta situação está a tomar forma semelhante aos choques petrolíferos da década de 1970. Noto que, à data, foram criados mecanismos para desincentivar o consumo petrolífero e conter a inflação, quer via incentivo à transição energética para outras alternativas, quer via uma política monetária mais restritiva. Atualmente, o governo português estuda medidas de incentivo ao consumo, como a redução do ISP.
Nos consumos que não conseguimos diversificar ficaremos sempre reféns do fornecimento de petróleo, que não temos no país. Num contexto de maior incerteza, a independência energética reduz a exposição a riscos geopolíticos.
Independentemente da duração desta crise e do preço a que o petróleo possa chegar, esperemos que os Estados europeus mantenham uma distância prudente deste conflito, sobre o qual não fomos consultados e cuja legitimidade internacional permanece incerta.