Cumprir Portugal
Portugal viveu, esta semana, um momento de grande peso institucional e de especial solenidade, carregado de sentido, significado e simbolismo. O fim dos 10 anos de um Presidente e o arranque para o mandato de um novo Presidente da República. Enquanto Marcelo Rebelo de Sousa fazia compras avulsas pelas redondezas, António José Seguro entrava na Assembleia da República para tomar posse como novo Presidente da República. “Le roi est mort, Vive le roi! Le roi ne meurt jamais!”. E, em Portugal, como deve ser, um Chefe de Estado escolhido pelo seu povo e não em função da sua ascendência.
Independentemente das vicissitudes que levaram à sua ascensão eleitoral silenciosa, num percurso curioso que culminou com a vitória, e apesar de continuar a achar que a função exige um pouco mais de rasgo, devo confessar que me parece que, do ponto de vista pessoal, António José Seguro merece este momento, essencialmente porque fica a sensação de que é o momento no qual é feita justiça política ao homem que o Partido Socialista condenou a uma morte lenta, patrocinada por António Costa e pelo seu impulso cruel, pela sua ambição desmedida. Depois de trair internamente o “camarada” que liderava o partido, Costa avançou apressadamente para um percurso impiedoso que, com um golpe parlamentar, transformou a sua derrota eleitoral, e do Partido Socialista, de 2015, numa plataforma de governação muito marcada pela sua habilidade pessoal, e por alguma sorte, mas que acabou por não deixar nada ao país e aos portugueses. Essa é a marca de António Costa. Foram nove anos de entretenimento, de manobras políticas, de danças de cadeiras, de conversa fiada e de promessas perdidas que adiaram Portugal. Ainda assim, a habilidade daquele que tem agora o filho, sorridente, no comentário político televisivo, leva-o à Presidência do Conselho Europeu, depois da queda do seu governo, socialista absoluto, na sequência de uma operação judicial que levou à entrada da polícia na residência oficial do Primeiro-Ministro.
Enfim, prefiro sempre a seriedade sóbria de Seguro à habilidade cínica de Costa. António José Seguro fez o seu caminho sozinho, sem o Partido Socialista, e, por isso, como referi, julgo que merece este momento, marcado pelo distanciamento partidário. É, também, para o país, um momento de esperança: o início. Tudo começa agora. Entendo, aliás, que os políticos só são grandes pela obra que deixam no fim do seu mandato, pelo que a eleição é apenas um momento de legitimação democrática para o exercício de um mandato que ainda não se cumpriu. A avaliação e o julgamento, fazem-se depois. António José Seguro terá agora de fazer o seu caminho. É um momento de responsabilidade e de compromisso para com o país. O momento de fazer cumprir Portugal em toda a sua plenitude, assumindo a sua verdadeira dimensão atlântica e a especial importância geopolítica das regiões autónomas e tudo o que dão ao país e à europa. Para além de jurar “defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição”, o Presidente da República, também na sua magistratura de influências, tem, acima de tudo, de fazer cumprir Portugal.