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Crónicas

A linguagem da Mente

Somos o que treinamos neurologicamente a pensar, sentir e agir: é aí que a transformação começa

“Somos a única máquina que se consegue programar a si própria.”

A citação é de Richard Bandler. Não nos diminui enquanto seres humanos, responsabiliza-nos. Se somos programáveis, então não estamos condenados à repetição cega daquilo que nos aconteceu. Estamos em aprendizagem permanente, a caminho da liberdade.

A Linguagem da Mente, publicado agora em Portugal pela Alma dos Livros e escrito por Richard Bandler, um dos co-criadores da minha querida Programação Neurolinguística, a par com John Grinder e Frank Pucelik, não é um livro de promessas rápidas nem um manual de autoajuda disfarçado de ciência. É uma proposta exigente e urgente: observar com curiosidade e rigor a forma como pensamos, como sentimos e como automatizamos padrões que, com o tempo, passamos a chamar de identidade.

A Programação Neurolinguística (PNL), que estuda a experiência subjectiva, é uma abordagem ao funcionamento da mente humana centrada em padrões de linguagem, atenção e aprendizagem, e nasce precisamente dessa observação e de uma pergunta simples: como fazem, exatamente, as pessoas que conseguem mudar e funcionar bem de forma consistente? Não se limita a perguntar por exemplo, por que razão alguém sofre, mas como constrói esse sofrimento no detalhe, e, sobretudo, como constrói os seus momentos de eficácia, clareza e escolha. Que imagens usa, que palavras repete internamente, que sensações associa, que sequências ativa sem se dar conta.

A mente não reage ao mundo em bruto, reage à representação que faz dele.

A PNL é o modelo de comunicação mais completo que existe até hoje, segundo muitos especialistas da área.

Uma das ideias mais provocadoras deste livro é também uma das mais libertadoras: o cérebro aprende tudo da mesma forma. Aprende a andar, a falar, a criar hábitos saudáveis e a desenvolver medos com a mesma lógica neurológica. Não há aqui moral nem intenção, apenas funcionamento. Por isso, padrões limitadores não são falhas de carácter, são aprendizagens eficazes aplicadas a contextos que já não existem.

Bandler desmonta ainda a noção romantizada da chamada “zona de conforto”. Não é conforto, é familiaridade. O cérebro prefere o previsível ao saudável, o conhecido ao funcional. Mudar não é sair do conforto, é sair do padrão. E isso explica por que tantas pessoas permanecem presas a narrativas internas que já não servem, mas continuam a reconhecê-las como suas.

A PNL não promete cura nem iluminação. Propõe algo mais exigente: responsabilidade pessoal e escolhas conscientes. Convida-nos a observar os nossos próprios processos como um cientista observa um sistema, com curiosidade, precisão e sem dramatização. Desde múltiplas perspectivas.

O problema raramente é quem somos, e sim o que repetimos sem consciência.

Leio este livro também a partir da prática. Trabalho há 16 anos com a Programação Neurolinguística, que naturalmente integrei primeiro em mim, pessoalmente e na minha vida profissional de jornalista, autora e cronista. Desenvolvi a Parentalidade Generativa, que incorpora e aplica a PNL à parentalidade e à educação, à comunicação e à transformação humana. Sou, até hoje, a única portuguesa distinguida com um NLP Award, em Londres, em 2019, na categoria Educação, não por fidelidade dogmática a uma universidade, mas por integrar pensamento crítico, ética e contexto cultural numa forma de estar que só faz sentido quando é vivida, incluída e praticada.

A PNL não é psicologia académica, nem ciência clássica, nem pensamento mágico, nem hipnose de palco, nem promessa instantânea. Assenta numa epistemologia construtivista e oferece modelos operacionais para compreender como construímos a nossa experiência e consequentemente a nossa realidade.

Os mapas não são territórios, e podem ser suficientemente flexíveis para ampliar escolhas, consciência e responsabilidade. Em síntese, A Linguagem da Mente lembra-nos algo essencial: liberdade não é ausência de condicionamento. Liberdade é a capacidade de orientar conscientemente aquilo que já funciona de forma inconsciente. E a pergunta mais honesta que podemos fazer é esta: que padrões estou a repetir e a quem servem hoje? Porque transformar não é tornar-se outra pessoa. É aprender a usar melhor a mente que já temos e dar corpo àquilo que escolhemos ser, em consciência, em cada momento.